“Somos todos americanos”: o Punto Libre de Obama para Cuba, por Sérgio Abranches

21/12/2014 08h39m. Atualizado em 24/12/2014 10h51m

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Sérgio Abranches
Barack Obama surpreendeu de novo. Ao anunciar o inesperado restabelecimento de relações diplomáticas com Cuba, derrubou um incômodo e caro anacronismo da política externa de Washington. Continua a construir, desta forma, tardiamente seu legado presidencial com decisões por decreto, deixando o Congresso atônito e os republicanos irritados. Deixará nas mãos da maioria republicana a decisão de eliminar ou manter outra parte desse anacronismo que é o embargo econômico. Nem na Flórida, o povo apóia mais essas velharias. Ao falar ao telefone com Raul Castro, Obama disse, em espanhol, que “somos todos americanos”, reconheceu um fato óbvio que praticamente todos os cidadãos do seu país ignoram. Eles se consideram os únicos americanos.

A primeira vez que entrei no Canadá pelo EUA, indo de carro de Ithaca, NY, cidade que hospeda a universidade Cornell, até Niagara Falls, onde passei pelo controle de passaporte, presenciei um impasse eloquente sobre isso. Ainda existia a guerra fria. Um irritado agente de fronteira canadense encarava seis casais de jovens, entre assustados e perplexos com a dificuldade de entrar em um “país amigo”. Pensei que ficaria horas na fila até ser atendido. Mas, o canadense pediu meu passaporte, examinou rapidamente o documento e me perguntou em inglês:
– De onde você é?
– Do Brasil – respondi.
Ele carimbou meu passaporte e me liberou. Antes que eu saísse, perguntou a um dos jovens:
– De onde você é?
– Eu sou americano – ele respondeu.
– Você é americano, eu sou americano e ele é americano – disse o guarda me apontando – de onde você é?
– Eu sou americano – respondeu o jovem ainda mais confuso e sem ter quem o socorresse na resposta de absoluta obviedade para um canadense e um brasileiro. Bastaria dizer “dos Estados Unidos” e estariam liberados.

Não sei se os cidadãos do EUA aprenderam com Obama que somos todos americanos. O certo é que está fazendo o que a maioria quer e esperava dele desde o início do primeiro mandato. Nas pesquisas de opinião, o apoio ao restabelecimento de relações diplomáticas com Cuba vai de 60%, na última pesquisa Gallup, a 67%, na mais recente sondagem CBS/New York Times. A Florida International University, de Miami, pesquisa a opinião pública local em relação a Cuba desde 1991. O apoio a relações diplomáticas normais só tem crescido. No seu último survey dos “cubano-americanos” (virou pleonasmo depois da frase de Obama) do condado de Miami-Dade, 68% disseram-se a favor do restabelecimento de relações diplomáticas com Cuba; 69% apóiam o fim das restrições a viagens (o que está ao alcance da caneta presidencial) e 52% se opõem à continuação do embargo. “Nós estamos testemunhando uma clara virada demográfica, com os cubanos mais jovens ou chegados aqui mais recentemente a favor de mudanças na política em relação à ilha”, diz o professor Guillermo J. Grenier, um dos principais responsáveis pela sondagem.

A ruptura promovida por Obama tem pouco a ver com a guerra fria. Ela acabou com o desaparecimento da URSS. Cuba era um problema da guerra fria até o final dos anos 1970, quando era dominada pela União Soviética, da qual dependia para sobreviver. Nos anos 1980, a ajuda econômica soviética começou a minguar. Com a Perestroika, mesdos anos 1980, ela saiu da agenda geopolítica soviética e se tornou, definitivamente, um problema regional. Com o colapso da URSS, virou um problema praticamente doméstico para o EUA. É possível atravessar em pouco tempo a distância entre o continente e a ilha numa lancha, em dias de mar calmo. Miami é uma cidade cheia de cubanos ricos e pobres. A Flórida tem 1,2 milhão de cubanos, o condado de Miami-Dade, tem quase 900 mil. Para se ter uma ideia, Havana tem uma população de 2,1 milhões. No condado de Miami-Dade, de acordo com o U.S. Census Bureau, 67% da população falam apenas espanhol dentro de casa. Nem todos são cubanos. Mas a grande maioria é. Quem se opõe a mudanças na política em relação a Cuba é a direita republicana, cada vez mais isolada da população, embora com controle sobre distritos que lhe garantem desproporcional representação no Congresso.

As comparações com a Coreia do Norte são incabíveis. Tampouco aquele fechado e obscuro país resultante da divisão após a guerra da Coreia deveria ser visto como um resquício da guerra fria. Mesmo com o ataque de hackers à Sony EUA – que tem participação pelo menos passiva da China – e as ameaças de uma vasta ação ciberterroristas contra os Estados Unidos, de impacto similar ao 9/11, a Coreia do Norte é muito mais um problema geopolítico da China e da Rússia, que de Washington. Obama errará se tentar retaliar, imaginando que o pivô central é Pyongyang, quando deveria focar sua mira em Pequim, que dá aos hackers norte-coreanos acesso à Webesfera e liberdade para operar sua rede ciberterrorista.

O embargo a Cuba cairá porque não funciona e não tem mais apoio popular. A reaproximação EUA-Cuba, mesmo que lenta e gradual, é a salvação da ilha, cuja economia está em colapso. Essa virada terá impacto sobretudo em Cuba e no EUA, com algumas repercussões de menor monta na América Latina como um todo. A mais difícil mudança, que não tem apoio popular majoritário e é, também, uma velharia, está ao alcance da caneta de Obama: retirar Cuba da lista de países que apóiam o terrorismo. Os republicanos dificultarão a inclusão no orçamento dos gastos com a abertura de embaixada em Cuba. Pura pirraça. Haverá troca de embaixadores. Nada a fazer senão cantar um punto libre.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

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