Miriam Leitão: As cores fortes do sertão

20/12/2014 08h25m. Atualizado em 03/01/2015 09h13m

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Todo dia, às seis da tarde, a mulher ia para o quintal, levantava os braços para os céus e pedia para morrer. Foi assim que ela se foi, logo depois do filho. Ela rezava sempre naquela mesma hora, religiosamente, mas depois da morte do filho passou a fazer das suas preces, clamores pelo fim da vida. A neta acha, hoje, que foi depressão, o que ela teve.
– Mas, naquele tempo ninguém entendia disso, muito menos no sertão do Ceará e assim minha avó morreu. Se fosse hoje, dava um remédio. Quem sabe ela durava mais.
O nome do lugar era Boa Esperança. A mulher tinha outros filhos, mas nada mais a interessou desde que o filho morreu daquele jeito, conta sua neta.
– Eu estava com febre, tinha três anos, e minha mãe foi duas vezes falar com meu pai que fechasse o bar para voltar para casa. Meu pai disse que um dos clientes não queria ir embora.
Houve um momento em que o dono do bar decidiu teimar e avisou ao renitente que fecharia, quer ele quisesse ou não. Ele estava fechando o bar, quando o cliente puxou a faca. O dono do bar não quis briga com o rapaz, um conhecido do lugar, e tentou fugir do enfurecido. Ele o alcançou.
–Morreu sem reação, o meu pai. Ele tinha um 38 na cintura, veja só, mas não quis briga. Não achou que o homem fosse fazer aquilo.
Era noite, mas a população de Boa Esperança foi para a rua e agarrou o assassino. Revoltado, o povo tentou fazer justiça ali mesmo.
–Ele apanhou tanto, tanto. Foi amarrado num poste. Minha avó apareceu lá, mas não bateu, só gritava: ‘por que você fez isso com meu filho?’ Coração do tamanho do mundo, a minha avó. Depois de muito apanhar, ele foi levado para a cadeia.
Foi uma comoção em Boa Esperança. Para o enterro compareceu a cidade inteira, os motoqueiros de toda a região, gente de outras cidades.
– Meu pai era muito querido. Tinha também uma padaria ao lado do bar. Uns motoqueiros iam lá comprar pão para entregar em outros povoados onde não tinha padaria. Minha mãe disse que foi o enterro mais lindo que se viu no lugar.
– E quantos anos tinha seu pai?
– Trinta.
Tempos depois o moço fugiu da cadeia, o assassino. E só aparecia de noite em Boa Esperança, escondido, para visitar a mãe e o pai.
– Mas a cidade desconfiava, porque os velhos compravam cachaça. Os velhos não bebiam; que cachaça era aquela? Achavam que era ele que estava lá. Quer dizer, ele fugiu, mas nunca pode viver com os seus. Só visita assim no meio da noite.
Um, dia ele foi visto na Tijuca, no Rio, num restaurante. Reconhecido por um primo do falecido, fugiu sem pagar a conta. Mais tarde se soube que ele tinha ido morar em Brasília.
– Mas lá encontrou a morte, porque se meteu numa briga e morreu. Igualzinho a meu pai, de faca. A ambulância foi chamada, mas já era tarde. Soube que alguém uma vez perguntou a ele por que ele tinha feito aquilo com meu pai. Ele abaixou a cabeça e respondeu: “não sei”.
Toda essa história eu fiquei sabendo porque quis trocar meu esmalte um dia depois de ter escolhido uma cor berrante. A manicure, chamada às pressas, veio depois do expediente, me acudir no meu arrependimento. Pedi desculpas, disse que a cor era bonita, mas não era para mim, não aguentaria tanta ousadia. Ela me disse que não havia problema. Prometi que no Natal aceitaria uma cor mais chamativa. E assim começou o diálogo:
– Não gosto de Natal. Acho triste.
– Por que?
– Meu pai morreu no Natal. Era um homem tão bom, cuidou tanto de mim. Um homem muito bom, o meu avô.
– Seu pai ou seu avô?
– Meu avô, mas eu considerava meu pai porque foi quem me criou de verdade.
– Morreu no Natal mesmo, ou nos dias próximos?
– No dia 25. De coração. Faz três anos.
– Mas se seu avô te criou, o que aconteceu com seu pai?
Foi assim que me foram narrados os fatos que aqui relato.
Ela contou tudo com voz baixa, sem espanto ou raiva, como se fosse uma história qualquer, sem dramas, em tom pastel. Tão comum quanto a cor que escolhi para pintar as unhas.
– Ficou bonito esse bege. Mas ainda acho que a senhora devia tentar um vermelho bem vivo. Vai ficar bonito na sua mão branquinha.
– Quanto é o serviço?
– Nada. Foi só trocar o esmalte. Semana que vem eu volto. Vou trazer umas cores fortes.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

2 Comentários para "Miriam Leitão: As cores fortes do sertão"

  • fatima msdureira 21-12-2014 (1:07 pm)

    ADOREI A CRÔNICA. SIMPLES COMO O SERTÃO. CHEIA DE TACOS COMO UMA COLCHA DE RETALHOS QUE SE ARMONIZAM EMTRE SI.

  • fatima msdureira 21-12-2014 (1:08 pm)

    ADOREI A CRÔNICA. SIMPLES COMO O SERTÃO. CHEIA DE TACOS COMO UMA COLCHA DE RETALHOS QUE SE HARMONIZAM ENTRE SI.

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