Cuba memories, “Você não acha que já chega?”; Por Clara Favilla

19/12/2014 17h26m. Atualizado em 21/12/2014 08h41m

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Por Clara Favilla

Viro a página do bloco de anotações e encontro: “Morrer pela pátria é fatigar-se…” Do livro “A vista do amanhecer nos trópicos”, de Guilhermo Cabrera Infante. Por que não o havia lido antes? Tenho tantas informações sobre esse jornalista e escritor, que resolveu picar a mula de Cuba enquanto podia, sem ter lido nada diretamente de um livro dele. Até encontrá-lo na estante da amiga, em Ponciana, Florida.

Uma resposta de Cabrera correu o mundo. Repórter: O que o senhor diria se encontrasse com Fidel? Cabrera: Você não acha que já chega? E a entrevista é de 1997! Cabrera morreu em 2005, aos 76 anos. A ceifadeira, a encapuzada confundiu as portas. Bateu na dele e poupou Fidel. Morreu cidadão britânico. Desde a década de 60 exilado, disse que não voltaria a morar na ilha nem sem Fidel, mesmo com toda a saudade que tinha do sol, do calor de Havana.

Filho de militantes comunistas, o escritor apoiou os da Sierra Maestra e foi diretor do Conselho de Cultura criado por Fidel. Mas já em 1961 sentiu-se traído pelos rumos da revolução. “Os russos estão chegando”, confidenciou à mulher, a atriz Miriam Gomez. Cabrera passou de apoiador a crítico feroz do novo regime. Em 1964, depois de vários percalços, em Cuba e no exterior, exilou-se definitivamente na Europa. Primeiro na Espanha e depois na Inglaterra.

Lendo Cabrera, nas férias, me lembrei das histórias sanguinárias que os mais velhos me contavam, passadas no Sul de Minas antes do Estado Novo, quando vigorava a política dos coronéis sem títulos e seus capangas: o assassinato sistemático de quem ousasse levantar a cabeça. Mortos que não fazem parte de qualquer lista de reparação histórica. Mortos brancos, negros, mulatos, caboclos, índios. Mortos doutores e analfabetos. Mortos de sapatos lustrosos, botas, alpargatas ou descalços. Mortos com e sem sobrenome, enterrados com ou sem cerimônias, mas sempre acompanhados da dor silenciosa geral ou de poucos, por soluços engasgados, em tumbas de mármores, covas rasas, valas.

São muitas os episódios sangrentos por esse Brasil afora, esquecidos, ignorados pelos contadores da história oficial. São mortos à espera de um Cabrera Infante que olhe com compaixão e interesse fotos amarelecidas e traga à luz seus derradeiros dias, seus derradeiros momentos sob o jugo de carrascos locais.

Também da estante da amiga de Poinciana, li “Animal Tropical”, de Pedro Juan Gutierrez. A Havana que ele descreve eu reconheço: caindo aos pedaços, fétida. Paciência e malemolência. Tesão à flor da pele. Homens e mulheres trocam sexo por perfumes, refeições, entradas em hotéis, boates e praias exclusivas para turistas. Gutierrez constrói com as palavras e fatos cotidianos uma literatura brutalista. Pra entendê-la é preciso viver o cheiro de rum barato, suor, sexo e umidade dos corredores dos edifícios superpovoados do El Molecón.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "Cuba memories, “Você não acha que já chega?”; Por Clara Favilla"

  • Vanessa Brito 20-12-2014 (10:08 pm)

    Maravilha de texto lúcido e pertinente sobre a realidade cubana. Parabéns! Bj

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