Suíça: por que ninguém protestou contra o aumento de 0,20 centavos da passagem

18/12/2014 09h00m. Atualizado em 19/12/2014 08h11m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Por Valéria Maniero

O preço da passagem de ônibus e de metrô subiu exatos 0,20 centavos no último fim de semana, mas como quase tudo que acontece por aqui foi sem alarde, na maior discrição. De 2,20 passou para 2,40 francos (quase R$ 7) o bilhete – com desconto para moradores – que pode ser usado em Lausanne, a quarta maior cidade da Suíça. O preço aumentou, mas ninguém protestou. Nada de manifestação.

Talvez porque os usuários estejam satisfeitos com o ônibus e o metrô de cada dia. Com a qualidade do transporte público. Como assim, é possível isso? No Brasil, de onde eu venho, essa última frase não faria sentido. Transporte público e qualidade, juntos, na mesma sentença, podem até ter significado na língua portuguesa, mas na vida real, não. Não combinam, vão em vagões separados. Mas na Suíça, acreditem, eles andam juntos, viajam lado a lado no trem, no ônibus, no metrô.

Desde a partida, digamos, a coisa é bem feita. Em cada ponto de ônibus, devidamente sinalizado, há máquinas para a compra de bilhetes, que também pode ser feita por SMS ou por meio de um aplicativo. Em muitos pontos, há um painel dizendo quanto tempo falta para o seu ônibus chegar. E quando não há essa tela, o passageiro pode conferir os horários num papel fixado no ponto, que traz outros avisos também, como o trajeto feito pelas linhas que passam por ali e o mapa com as regiões.

Maquina

Máquinas para a compra de bilhetes no ponto de ônibus de Riant-Cour, Lausanne, na Suiça (Foto: Valéria Maniero)

Com a passagem comprada, você entra no ônibus, que não tem roleta nem cobrador, e só vai tirá-la do bolso se os fiscais aparecerem. E eles dão as caras de vez em quando. Terá de pagar multa quem não tiver comprado a passagem. E nem dá tempo de pensar em descer no ponto mais próximo, porque a abordagem é inteligente: os fiscais entram por todas as portas ao mesmo tempo e vão pedindo as passagens para todos os passageiros, inclusive para os que estão saindo.

Criança lendo dentro de ônibus na Suíça (Foto: Valéria Maniero)

Criança lendo dentro de ônibus na Suíça (Foto: Valéria Maniero)

E segue a viagem. Antes de cada parada, é anunciado o próximo ponto, cujo nome também aparece numa tela. Para ir à estação de trem, por exemplo, o passageiro desce após ter ouvido o “Prochain arrêt (próxima parada): Lausanne gare”. Eu consigo chegar lá, por exemplo, às 20h55, se eu pegar o ônibus que passa às 20h47 em Batelière, o ponto de ônibus mais perto. Para ir ao Centro da cidade pela manhã, outro exemplo, eu posso pegar o ônibus de número 6 que vai passar às 08h01 e chegar em Saint-François, provavelmente, às 8h15. Com os horários definidos e bem divulgados, é possível se programar e chegar com antecedência aos compromissos. Não dá para colocar a culpa no ônibus se você se atrasar para o trabalho. É melhor arrumar outro motivo.

É claro que há imprevistos. Lausanne, que tem pouco mais de 130 mil habitantes, é conhecida por ser uma das menores cidades do mundo com metrô. Mas de vez em quando ele falha. Já vi o metrô apinhado de gente e circulando com atraso. Mas como passageira, não me senti perdida nem fiquei andando para lá e para cá, sem informação, como costuma acontecer em casos assim no aeroporto mais perto de você. Naquele dia, uma placa informava que o metrô estava atrasado e que providências haviam sido tomadas. Mesmo assim, alguns passageiros se estressaram; um senhor reclamou alto, deu meia volta, desistiu do metrô e foi pegar um ônibus, imagino eu.

Casos como esse, entretanto, são exceções; funcionar bem é a regra, ao contrário do que ocorre com o transporte público em muitos países da América Latina. Não é só no Brasil, a gente sabe. No curso de francês, outro dia, os alunos do México, Brasil, Peru e Equador reclamaram dos mesmos problemas: na lista dos estudantes, violência e corrupção – velhas conhecidas – e a situação precária dos transportes públicos! Em alguns desses lugares, contou uma aluna, o ponto de ônibus simplesmente não existe. O motorista para de vez em quando, onde ele quiser. A regra é a falta de regras.

Quando o transporte público funciona bem, como nessa cidade suíça, a sensação que se tem ao chegar ao ponto final é a de que fomos bem tratados, respeitados como consumidor e cidadão. Seja ele suíço ou estrangeiro, com muito ou com pouco dinheiro.

Valéria Maniero

Valéria Maniero é formada em Jornalismo com especialização em Relações Internacionais. Gosta de gente e das coisas do mundo. Atualmente, mora na Suíça.

    Comente

    O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.