Ava, o animal mais belo do planeta, por Clara Favilla

17/12/2014 08h06m. Atualizado em 18/12/2014 09h03m

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Há limites para a beleza de uma mulher? Se existem, no caso de Ava Gardner, foram quebrados. Viajei pelos olhos felinos de Ava, em “A condessa descalça” (1954) numa noite dessas de sessão Telecine Cult.
Viajei tanto que a vi nadando nua, iluminada pela lua, na casa de Hemingway, em Cuba. Dizem que Ava e Hemingway tiveram um caso. O certo é que ela teve três breves casamentos. O primeiro com Mickey Rooney. Sim aquele ator feio e baixinho. Depois com um músico – clarinetista – Artie Shaw, que quis fazer dela  uma pessoa  culta como Arthur Müller, o teatrólogo, quis fazer de La Monroe. Por último, casou-se com Fank Sinatra.

Além desses três casamentos, Ava teve um longo caso – dez anos –  com aquele estranho bilionário doublê de aviador e agente secreto, Howard Hughes, acometido de esquisitices compulsivas obsessivas como as de lavar as mãos até sangrarem.  Teve também, comprovadamente, um affair com um toureiro famoso, Luis Dominguin. Morreu em Londres, 1990. Não teve filhos.

Dizem que A condessa descalça é quase uma biografia de Ava, que nasceu de uma família paupérrima. Só chegou a Hollywood porque seu tio, um fotógrafo, colocou na vitrine de sua loja, em Nova York,  fotos da garota. Alguém de um estúdio fotográfico famoso passou por ali, viu as fotos e o resto é história. O primeiro salário de Ava foi de 50 dólares semanais. O poeta Jean Cocteau, em referência aos olhos felinos da atriz, a definiu como “o animal mais belo do mundo”.

No filme, a protagonista, Maria Vargas, dança em um cabaré de Madri, mas não se socializa com os clientes nem por dinheiro. Faz suas próprias regras. Quando criança, foi explorada pela mãe que a fazia dançar pelas ruas por uns trocados dos transeuntes. Assediada por um produtor americano a procura de um novo rosto para apostar, acaba se mudando pros Estados Unidos. Sua vida amorosa é um mistério. Não se entrega a homem algum, mas tem casos secretos. Como Ava, a mãe de Maria morre quando seu primeiro trabalho é lançado.

O filme tenta decifrar o mistério de uma mulher a partir de vários pontos de vistas masculinos. É inovador na concepção, ao fazer a história voltar de acordo com quem a está narrando. É também interessante por começar pelo fim: o enterro da protagonista, que só se sentia segura em vida, quando descalça com os pés em contato com a terra. Morta, todo o seu corpo, barro que é, à terra retornará. 

No filme, há a mobilidade psicológica representada pelos vários pontos de vistas que  sequer chegam a arranhar o mistério da protagonista. E também a mobilidade física: a história acontece em  locais diferentes: Hollywood, Madri, Nice, Mônaco e a Villa do Conde Vincenzo Torlato-Favrini (Rossano Brazzi) que se casou com Maria. Daí o título de condessa que vai pro epitáfio da protagonista. A escultura de mármore, para a qual a condessa posou descalça, viaja da Villa onde viveu seu conto de fadas e tragédia para o cemitério. Ali, sua beleza que seria efêmera se continuasse viva, continuará reinando como arte.

Bem, enquanto via o filme meu pensamento descambou para analogias bastantes apropriadas e outras bem viajandonas. Maria gostava de andar descalça, um jeito poético de se começar a ver, imaginar uma mulher nua. Ava gostava de nadar nua. Não só de nadar, mas de andar nua pela casa e pelos jardins da casa de Hemingway, Conheci a casa do escritor quando estive em Cuba, em 1996, com minhas amigas, também jornalistas, Rosalva Nunes e Liliana Lavoratti. Enquanto eu via a Villa do nobre italiano, no filme,  também me via andando pelos jardins da casa de Hemingway.

Em certos momentos, eu não não só via o filme como  produzia mentalmente um outro com tudo o que eu sabia do escritor e da atriz.

Somos os lugares que habitamos, que conhecemos, que  visitamos  acordados e revisitamos em sonhos. Somos as viagens que fazemos. Somos as pessoas nossos afetos e desafetos.

Em Madri, Maria era uma dançarina. Em Hollywood, uma atriz. Em Mônaco, uma mulher frívola e ladra. Na Villa de seu  problemático marido, que lhe apareceu tal o príncipe do conto de fadas: uma condessa.  Ava, a atriz,  movimentou-se entre cenários reais e fictícios e amou homens dos mais diferentes ofícios: ator, músico, escritor, aviador/agente secreto, toureiro. 

Hemingwy era jornalista. Cobriu a guerra civil espanhola e escreveu Por quem os sinos dobram. Depois, de viver na cidade dos cabarés e cafés escreveu Paris é uma festa. Em Havana, escreveu O velho e o Mar. Morou em Cuba por mais de duas décadas e só deixou a ilha em 1960, depois que Fidel assumiu o poder, por pressão, dizem, do governo americano. 

A casa de Hemingway eu já conheço. Vou agora procurar a Villa do Conde Torlato-Favrini .No filme, é dito, que fica perto de Rapallo, uma cidade litorânea. Eu conheço Rapallo. Não custa tentar. Mesmo que a Villa do filme tenha sido um cenário pintado, a real certamente estará por lá. Ou melhor, várias delas.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "Ava, o animal mais belo do planeta, por Clara Favilla"

  • Raquel Ramos 18-12-2014 (5:39 pm)

    Que maravilha! Não sabia nada de Ava Gardner, além da sua beleza, nem de Maria Vargas. Agora só preciso ir contigo à Rapallo.

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