Aquecimento global já deixa sequelas em cidade no Alasca

16/12/2014 08h28m. Atualizado em 21/12/2014 19h53m

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Enquanto a última Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas COP 20 terminou sem grandes avanços, uma pequena e remota cidade no Alasca já começou a sentir os efeitos do aquecimento global.
Shishmaref está localizada a 30 quilômetros ao sul do Círculo Polar Ártico, ladeada pelo mar de Chukchi ao norte, em uma região onde há cada vez mais rápido o derretimento do chamado “permafrost”, constituído por terra, gelo e rochas antes permanentemente congelados.
A cidade fica na ilha de Sarichef (veja mapa abaixo). Nas últimas décadas, a costa dessa ilha foi sendo corroída pelo mar, perdendo grandes pedaços sempre que uma forte tempestade os atinge.

Localização de Shishmaref (Google Maps)

Localização de Shishmaref (Google Maps)

A ilha tem lidado com problemas de erosão desde a década de 1950. Todavia, a mudança climática está agravando consideravelmente o problema — revelou reportagem de Kate Sheppard, do Huffington Post, nesta segunda-feira (15).
As temperaturas médias estão aumentando mais rápido no Alasca do que no resto dos Estados Unidos, aquecendo 3,4 graus centígrados nos últimos 50 anos.
As temperaturas mais altas estão fazendo com que a camada de “permafrost” fique cada vez mais fraca e mais vulnerável a tempestades e atividade das marés, aumentando a perda de margens de Shishmaref.
Temperaturas mais quentes têm encurtado o período que o Mar de Chukchi permanece congelado a cada ano, deixando a linha costeira vulnerável à erosão causada pelas tempestades de inverno.
Os moradores de Shishmaref, a maioria de nativos do povo Inupiaq, habitantes da região ocidental do Alasca, tentaram combater estes problemas movendo as casas para cada vez mais distante das falésias.
Também construíram uma barreira na costa norte para tentar segurar as ondas. Mas em julho de 2002, olhando para a realidade a longo prazo, a população de 562 pessoas votou por transferir a cidade para outro lugar. Contudo, a “transferência” provou-se cada vez mais difícil e a cidade está no mesmo lugar, 12 anos depois.
O incrível é que, segundo o relato de Sheppard, é fácil notar que algo está errado na cidade.
Uma das primeiras coisas que uma pessoa vê ao chegar em Shishmaref é um pequeno prédio de madeira apoiado precariamente à beira da praia. Um canto está pendurado sobre a borda de um declive e a água batendo a poucos metros de distância (veja imagem).

The huffington post/ Gabriel Bouys/ Getty Images

The huffington post/ Gabriel Bouys/ Getty Images

Fotos antigas da ilha mostram grandes praias de areia. De acordo com o huffington post, anciãos da aldeia lembram de jogar “Eskimo baseball” na praia até tarde da noite, pois o sol ainda brilha às 23 horas, no auge do verão.

 Alaska State Library Historical Collections)

Alaska State Library Historical Collections

A partir da comparação de fotos aéreas, o Exército americano estima que a ilha está perdendo entre 1 metro a 2,7 metros, em média, por ano. Grandes tempestades anuais já documentaram a perda de até 6 metros.
A única maneira de chegar ou sair da cidade é por barco ou avião. O povo vive da caça de subsistência e a ilha faz parte da Bering Land Bridge National Preserv, área de preservação ambiental.
Evidências arqueológicas mostram que a habitação humana no local remonta a 1600. O relato da cidade leva a uma questionamento óbvio. A pergunta é: o mundo está pronto para começar a enfrentar as consequências do aquecimento global? A COP 20 definitivamente não respondeu à urgência necessária.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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