Miriam Leitão: Antes do futuro

13/12/2014 00h34m. Atualizado em 14/12/2014 08h36m

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Hoje não falarei de flores. Nem de lembranças da infância ou de brincadeiras com os netos. Fui acolhida neste blog para aqui descansar da aridez de certos temas, e dos embates da agenda brasileira.
Agradeço o refúgio do blog, mas neste sábado, só saberia falar de flores se fosse sobre as que as famílias não podem depositar sobre os túmulos inexistentes dos seus mortos.
De férias, dedico meu tempo a escrever um livro sobre o futuro. Missão quase impossível num país de presente intenso e de passado não resolvido. Suspendi brevemente as férias por causa da Comissão Nacional da Verdade: entrevista, leitura de relatório e análise na coluna. Impossível ficar longe. Eu queria fechar um ciclo.
No começo de 2012, antes de a Comissão ser oficialmente instalada, eu já estava trabalhando na pauta que a CNV suscitava. Fiz a reportagem especial sobre Rubens Paiva. Comecei a narrativa do documentário “Uma história inacabada”, que foi ao ar na Globonews, falando, diante da bela imagem do mar do Leblon, em frente ao endereço, no qual o ex-deputado morava com a família: “A memória vem e vai e não descansa. No Brasil há fatos e personagens que voltam sempre. Perguntas que procuram respostas que jamais foram dadas. Há quatro décadas o Brasil vive uma história que permanece inacabada.”
Uma das inúmeras perguntas ainda sem resposta é em que local foi posto o corpo do deputado, arrancado de sua casa no dia 20 de janeiro de 1971. “Ele saiu para o mar ”, disse o torturador Paulo Malhães ao repórter Chico Otávio, sobre o destino do corpo. Depois recuou da versão. Talvez um rio, ou sob a terra em algum ponto da cidade. Talvez. Quem sabe. E assim ficam seus filhos e netos com flores que não sabem onde depositar.
De novo aparecem as vozes fazendo a estranha pergunta sobre que punição recairá sobre os que foram contra o regime. Rubens Paiva foi condenado sem provas e sem julgamento, foi executado sumariamente de forma cruel e seu corpo sonegado à família. Vinte mil pessoas foram torturadas, milhares foram presas, mais de 7.000 foram julgadas por cortes marciais sem os direitos elementares, inúmeras foram para o exílio, e 434 foram condenadas à pena de morte sem julgamento. Querem mais? Que novas punições devem recair sobre os mortos sem sepultura? Dos equívocos do debate público sobre este tema, a da suposta falta de julgamento dos adversários do regime militar é a mais delirante.
Uma amiga me contou esta semana que era adolescente no dia em que abriu a porta da sua casa e um senhor lhe disse: “sou o seu pai e acabo de chegar do exílio”. Ela passara dez anos sem o pai por perto. Roubaram-lhe o que não poderá ser devolvido. Em um tempo sem internet e em que as cartas eram violadas, ele vagara por vários países latino-americanos – Uruguai, Chile, Argentina, Peru – onde os governos foram depostos num dominó trágico. Minha amiga era criança quando o pai foi embora. Que crime ela cometeu para pagar esse preço?
Das penas que recaíram sobre pessoas, a mais dolorosa para as famílias é a do corpo insepulto, o luto em suspenso. Esse tema me assombra tanto que dele tratei no livro “Tempos Extremos”. É dor que atravessa o tempo e todas as culturas. E é a maldade favorita das tiranias. Na tragédia grega, foi pelo direito de enterrar seu irmão morto que Antígona se rebelou contra o poder de Creonte, em Tebas. “Ele não pode impor que eu abandone os meus”, diz a heroína de Sófocles. E por fim, em uma frase, define o que para sempre será a pior das penas. “Como serei desventurada ali, nem pertencendo aos vivos, nem aos mortos”. Querem punição maior que esta?
Por isso invado esse refúgio, a mim generosamente concedido pelo blog, e digo que sim falaria de flores nesta manhã de sábado, se soubesse onde estão as sepulturas dos mortos sobre as quais eu gostaria de depositá-las. Assim olharia para o futuro, sem voltar o rosto para essa história que permanece inacabada.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

3 Comentários para "Miriam Leitão: Antes do futuro"

  • Graça Seligman
    Graça Seligman 13-12-2014 (10:33 am)

    Que texto ! Que triste ! Que verdadeiro !

  • Lelena Mindlin 13-12-2014 (11:23 am)

    Miriam tem o poder de falar dos assuntos mais graves e tristes , com emoção e clareza , sem deixar de lado a objetividade crítica de um jornalista convicto !!
    Adoro !!!

  • Marilia Torres 14-12-2014 (2:49 pm)

    Brilhante! Emocionante!

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