Clara Favilla: Tessalônica, Grécia, onde reconheci um coração meu que sempre estivera lá

10/12/2014 17h01m. Atualizado em 15/12/2014 15h54m

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Amigo meu jornalista viajou a trabalho a um país do Oriente Médio, do qual não me recordo o nome, com escala em Paris, acompanhando uma autoridade da área econômica. Isso foi há muitos anos, ainda na década de 80.
Na hora de fechar a conta do hotel das arábias, viu que ela havia ultrapassado em muito os cálculos previstos, culpa das ligações caríssimas para o Brasil que fora obrigado a fazer. Naqueles tempos, viajávamos sem cartão de crédito. Só com travellers checks e dinheiro vivo.
O amigo acabou chegando a Paris com poucos dólares e o sonho de passar alguns dias na cidade esboroou-se. Qualquer pessoa sensata teria providenciado o retorno imediato ao Brasil. Mas não ele. Ficaria em Paris nem que fosse por algumas horas. Conseguiu remarcar para o dia seguinte a passagem pela Varig sem multa e encontrar uma espelunca pra passar a noite. Foi de ônibus do aeroporto para a cidade e nunca foi tão feliz na vida em menos de 24 horas.
Paris vale cada minuto do viajante com ou sem dinheiro no bolso. Até passar fome em Paris merece versos como os cantados em La bohème. Sempre é uma primeira vez quando andamos pelas suas ruas. Ao mesmo tempo, como disse o poeta J.G de Araújo Jorge, Paris nunca nos é uma estranha. Quando chegamos, apenas a reconhecemos, tantas as informações amorosas que catalogamos sobre a cidade em leituras, filmes, canções imortais e devaneios. (Sei que alguns rirão de ver esse poeta, citado aqui. Mas saibam que eu prezo muito.)
Foi o que aconteceu comigo em Tessalônica, Grécia. O primeiro dia que vi o mar azul da cidade foi um reencontro de velhas conhecidas. Tantas as histórias que meu pai me contava desde que eu era bem criança! Dário, meu pai, um apaixonado pela Antiguidade, seus mitos, heróis e arte.
Por isso, fiquei estarrecida, quando me deparei com um post de um blogueiro de grande jornal, crítico de cinema. Ele simplesmente foi cobrir o Festival de Cinema de Tessalônica sem saber que a cidade é a capital da Macedônia Grega. E se espantou com a grande estátua de Alexandre em lugar destacado! E corajosamente confessou isso no post. Eu pergunto, como alguém que não sabe nada de Tessalônica pode ser crítico de cinema? Estarei sendo exigente demais? Se estiver, perdoem-me.
Atravessei o umbral de meu lar atemporal ao chegar à Tessalônica, naquele frio de início de noite. Era novembro de 1985. E ali quis ficar. Mas quando não se está sozinho, fica difícil se chegar a um acordo sobre alterações em roteiros pré-estabelecidos. E a cidade aconteceu apenas como uma das paragens no nosso caminho rumo a Sofia, Bulgária, a partir de Atenas. No máximo consegui que passássemos a noite ali depois de me encantar com os seus sons, aromas e cores.
O dono do pequeno hotel em que ficamos era (pasmem!) brasileiro, casado com uma grega. E depois de nos instalar, passeamos pela orla e praças da cidade, meu coração apertou. Quando eu poderia voltar para onde meu coração parecia sempre ter estado? Mas se há séculos, Paulo, o convertido, que viajava de barco e a cavalo, pode lá retornar pelo menos uma vez na vida, por que não eu?
Antes de escrever este post, tive acesso, na rede, a muitos relatos de viagens de pessoas como eu que passaram pela cidade com destino definido mais adiante e quase… quase… alteram a rota. E vem a saudade depois de nunca terem se perdido pelas ruas limpas e arborizadas de Tessalônica, pela sucessão de seus quarteirões de prédios brancos, salpicados por monumentos, testemunhas da passagem de tantos povos ali, muito antes e também muito depois dos romanos: a Torre Branca, o Arco de Galério (foto), igrejas e museus que trouxeram à luz tesouros enterrados durante séculos.

Clara Favilla

Clara Favilla

Tessalônica está na minha lista de desejos. Não só a cidade, mas seus arredores como Vergina, onde escavações nos revelaram maravilhas de 300 anos AC. Também pretendo ir a Meteora e ver os últimos das dezenas de mosteiros construídos sobre penhascos. Restam apenas seis visitáveis.
Aqui o endereço pra quem quiser ler a crônica de J. G. de Araújo Jorge sobre Paris: http://www.jgaraujo.com.br/nomundo/nunca_paris_primeira_vez.htm

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

2 Comentários para "Clara Favilla: Tessalônica, Grécia, onde reconheci um coração meu que sempre estivera lá"

  • Rosa 11-12-2014 (11:58 am)

    Se eu ficar comentando e elogiando aqui seus pista vai ficar repetitivo, chato? Nem ligo, vou fazer isso! Viajante de alma e coração como eu é vc adoram esses relatos de viagem, especialmente esses seus. E ainda nos conduz a outros , como os de J G de Araújo Jorge . Obrigada
    Só uma coisinha: o link não abre. Coloque outra vez, please.. Bjos . Parabéns ao Matheus .

  • Rosa 11-12-2014 (12:01 pm)

    Erros do corretor – sempre ele- seus posts rsrs

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