Comissão da Verdade: sou da geração que não viu, mas ouviu os ecos do passado revisitado

10/12/2014 20h08m. Atualizado em 11/12/2014 21h08m

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O trabalho da Comissão da Verdade, finalizado nesta quarta-feira (10) após dois anos e sete meses, é um importante avanço para a sociedade brasileira.
O Brasil nunca soube viver esse doloroso encontro com o passado. Ao contrário dos vizinhos como Argentina e Chile, não culpou, nem julgou as violações dos direitos humanos.
A ditadura militar (1964-1985) torturou, matou e ocultou cadáveres. Pessoas eram colocadas nuas, em pé, tomavam choques até desmaiar, eram dependuradas em paus de arara. Entre esses, haviam aqueles que tinham paradas cardíacas, e eram ressuscitados, apenas para que os agentes do Estado reiniciassem seu macabro trabalho.
Torturadores perguntavam, inclusive, como estava o coração de opositores do regime antes das sessões.
Tenho ouvido, ao longo da minha vida de repórter, inúmeros relatos de esquerdistas que foram covardemente atormentados por militares. Certa vez, ouvi Crimeia Alice Schmidt me contar como ela foi torturada grávida pela ditadura. Tomou murros, chutes, palmatória e choques elétricos. Os militares usaram o filho nascido na prisão contra ela.
Escrevi, inclusive, reportagem na revista Época com o título “Torturado antes de nascer”. Conheço pelo menos outras duas mulheres que foram torturadas grávidas, como a jornalista Miriam Leitão e a médica Magdalena Frechiani. Os jornalistas Marcelo Netto e Jorge Luiz de Souza passaram nove meses, cada um numa solitária, em mais de um ano de prisão, após as torturas físicas. O silêncio de uma solitária desespera.
Era o Estado, financiado pelos impostos dos brasileiros, que deveria proteger os direitos dos cidadãos… mas ele mesmo cometia (e cometeu diversos!) crimes terríveis contra esses contribuintes.
Mesmo que não sejam medidas mais enérgicas, mesmo que não demovam os militares que continuam a defender as atrocidades cometidas, os sete comissionados atuais da CNV, e outros que foram substituídos durante o processo, estão de parabéns. E todos os inúmeros funcionários que se dedicaram ao esforço de resgate dos fatos acontecidos no Brasil.
A Comissão não endossou a ideia de que só alguns cometeram abusos. O relatório diz com todas as letras que os comandantes sabiam de tudo e as violações eram determinadas/controladas pela cadeia de comando das Forças Armadas. Ao apontar 377 militares e ex-autoridades como autores de graves violações dos direitos humanos durante a ditadura, como adiantado pelo blog, a Comissão Nacional da Verdade permitiu ao país um avanço.
Esses nomes não serão esquecidos, inclusive o nome de cinco ex-presidentes militares. E não devem ser. Por que? Pelo simples fato que cometeram os crimes no exercício de cargos públicos, como servidores, e não foram sequer julgados, quanto mais punidos.
Estranho é ler e ouvir correntes que defendem que a Lei da Anistia foi para os dois lados e, por isso, o passado deveria ser esquecido. A Lei da Anistia foi aprovada com os militares no poder, com o comando do país nas mãos, e muitos opositores já haviam cumprido penas duras, sem direito a julgamento justo.
O Estado de Direito, conquistado duramente, garante o amplo direito de defesa e do contraditório. Se fossem julgados nos tempos atuais, os torturadores teriam o que muitos jovens não tiveram no período. Uma ordem de prisão expedida por juiz, o transitado em julgado, o direito ao habeas corpus. Nada disso existia.
Nasci na ditadura, mas não a vivi. Tinha pouco mais de um ano na época da Lei da Anistia. A ditadura estava no seu fim. Todavia, ouvi os ecos da geração mais velha, das torturas físicas e psicológicas. Sou filho e irmão de presos políticos, citados nesta análise. Meu irmão, Vladimir Netto, nascido no pior período do regime, estava em gestação quando nossa mãe foi presa. Também entrevistei militares, ouvi a versão que eles dão aos fatos em várias reportagens que escrevi sobre o período. Certa vez, eu bati na porta e entrei na casa do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ouvi e publiquei o que ele disse. No relatório ele está como responsável por 45 mortes ocorridas durante o período em que comandou o Doi-Codi.
Em uma das minhas apurações, encontrei uma lista de tipos de tortura. Eram 310. Li todas. Nunca esquecerei cada uma delas. Tenho a lista até hoje. Não irei compartilhá-la aqui. Mas, ao lê-la, pensei em jovens de 19 anos sofrendo esse tipo violência.
Junto da angustiante lista havia o número de denúncias de tortura, com o total de violações. Homens e mulheres atingidos, retrato do grau da covardia cometida na escuridão dos porões. Essa irei compartilhar. Registra 6.016 (Veja abaixo), 1098 contra mulheres.

Arquivo/Matheus Leitão

Arquivo/Matheus Leitão

O choro da presidente Dilma Rousseff, uma delas, é mais que justificável… é legítimo. A solidão que Dilma sofreu durante os 22 dias de sessões de tortura, além da dor pela perda de companheiros assassinados, é algo difícil de imaginar.
No discurso, Dilma chorou ao dizer que “mereciam a verdade aqueles que continuam sofrendo como se eles morressem de novo, e sempre, a cada dia”. Ela chorou pelos que morreram.
Dilma também foi extremamente feliz ao dizer que “o Brasil merecia”, e que as “novas gerações mereciam a verdade”. O resultado da Comissão é uma vitória do governo dela, mas ela alertou que era do Estado brasileiro e não do governo.
Sou pai de duas crianças e terei que fazer uma narrativa da história para educá-los. Eles são muito novos ainda, mas um dia estudarão esses fatos. Nas reuniões de família, saberão o que a geração dos seus avós enfrentou. E a de outros — gerações mais velhas. E eu direi a eles o que ouvi, apurei, e soube sobre os fatos que aconteceram antes de eu nascer. O relato da Comissão da Verdade terá virado História, mas será importante material de estudo. A verdade é que tentarei passar para eles a ideia que está contida na frase-lema da Comissão: “Para que nunca se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

5 Comentários para "Comissão da Verdade: sou da geração que não viu, mas ouviu os ecos do passado revisitado"

  • Sonia 10-12-2014 (9:38 pm)

    Acho achei seu texto coerente, sua familia sofreu muito. A ditadura nos livrou do comunismo de forma desumana. Mas a esquerda também matou e ninguém fala em indenizar essas famílias. A comissão da verdade nunca as citou. Tem que reconhecer que houve excesso dos dois lados, o lado militar em maior numero, porque eles eram maioria, mas houve. E os esquerdistas não mataram apenas militares, mas pessoas comuns, motoristas de taxi, clientes dos bancos que assaltaram. Só estão vendo um lado dessa história.

  • Maria Aparecida 11-12-2014 (12:06 am)

    A Ditadura Militar via fantasmas de comunismo, toda vez que quer se diminuir a pobreza e dar direitos á todos cidadãos sem distinção de sua orientação sexual, raça, religião, união com outras nações; que não compartilham com suas paranoias e liberdade de expressão! É uma visão fundamentalista retrógrada , que tem como importante somente o poder capitalista, que escraviza a maioria da população, dando privilégios apenas á elite.

  • JOAO LUIZ 11-12-2014 (12:08 am)

    Os militares cumpriam ordens do Estado Brasileiro e muitos morreram e não foram citados, por outro lado quem sofreu perseguição, foi torturado e morto foram aqueles que por livre e espontânea vontade resolveram enfrentar o Governo. Esses tais lutaram nao pela democracia , mas lutaram pela implantação do Comunismo no Brasil, apoiados por Rússia, mas nossas Forças Armadas , apoiadas pelos EUA deram o Golpe antes dos Comunistas, que perderam a batalha. Isso é a verdade para você contar aos seus filhos. O resto é fantasia e mentira , um Modus Operandi bem típico do PT de hoje e de 1964 !!!

  • Miguel M. Guimarães Filho 11-12-2014 (10:59 am)

    Eu tenho 62 anos, vi muitas injustiças ocorrendo nesta época, muita gente tombou nestas batalhas e sei também que nem um tipo de “Ditadura” me serve e muito menos para o Brasil, que a duras penas, conseguiu a democracia. Hoje estou sentindo e vendo claramente uma outra “Ditadura,” implantada no país e sinceramente estou preocupadíssimo com a evolução disso, as nossas instituições totalmente aparelhadas por esse governo, a proximidade imposta por eles com os países “Comunistas” e com os piores ditadores do universo, em fim, nada terá valido se depois de transitarmos livremente por uma democracia, votarmos a uma “Ditadura” agora com a bandeira vermelha. Salve a Democracia e viva a liberdade.

  • Paulo Santos 17-12-2014 (2:22 pm)

    Pena que alguns teóricos insistem em tentar ser formadores de opinião, principalmente sem ter passado pelo Período. Devemos lembrar que em Todas as famílias existem Militares, mas apenas em algumas Terroristas.
    A Nação espera que as Forças Armadas continuem alertas para proteger seu Povo e a Democracia.

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