O último jogo de Barack Obama, por Sérgio Abranches

07/12/2014 09h06m. Atualizado em 10/12/2014 23h55m

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Obama é uma das mais instigantes e intrigantes personalidades globais da história contemporânea recente. Venceu a mais empolgante e marcante eleição das últimas décadas no EUA. Talvez só comparável à de Kennedy, um descendente de irlandeses católicos, em um país então radicalmente protestante e anglosaxônico. Primeiro negro a entrar na Casa Branca como presidente, filho de um queniano, incendiou o país de otimismo e esperança. Sucedia a George W. Bush, uma personalidade depressiva, com ideias velhas e um espírito medíocre, cujo único projeto era ser o novo guerreiro da Guerra Fria. Disse basicamente isso em seu discurso de posse e Osama Bin Laden permitiu que realizasse sua promessa. A vitória de Obama com certeza exacerbou os ânimos das alas mais conservadoras e racistas do país, agravando a polarização que praticamente esvaziou o centro do sistema de poder em Washington e, especialmente, em Capitol Hill.

Obama venceu na retórica e na visão. Fez um governo fraco no primeiro mandato. Insistiu em se postar no centro do espectro político gravemente esvaziado. Perdeu tempo demais com o Medicare. Vacilou no relacionamento com o Congresso. Foi quase tão conservador quanto Bush, na política externa. E bem mais progressista nos campos social e ambiental. Reelegeu-se, mas perdeu as duas eleições intermediárias. Na segunda, mais recente, os republicanos lhe subtraíram a pequena maioria que havia conseguido manter no Senado. Até aí, nada demais. Faz parte da tradição. O eleitor no EUA tende a dar a maioria no Congresso à oposição no meio do mandato presidencial para equilibrar o jogo de poder. É um teste para o presidente. É preciso habilidade, liderança e determinação para não virar um lame duck precoce. O desempenho de Obama até então, parecia indicar que este seria seu destino. Mas ele resolveu dobrar a aposta. Desde a derrota previsível, tem tido atitudes imprevisíveis, à luz de seus primeiros cinco anos de Casa Branca.

Acaba de enfrentar o Congresso com o decreto executivo sobre imigração. Diante do bloqueio parlamentar, editou decreto executivo regulando de forma fortemente liberal as regras de concessão de visto permanente para imigrantes. No primeiro mandato, Obama já havia irritado Capitol Hill, que enterrou quatro projetos de legislação sobre mudança climática, ao definir os mais rigorosos padrões de emissões já adotados para veículos, indústrias e termelétricas, usando os poderes legais da agência ambiental. Agora, prometeu rever esses parâmetros para torná-los ainda mais rigorosos.

Está fazendo incursões estratégicas mais fortes na diplomacia presidencial, pondo em movimento um xadrez geopolítico envolvendo EUA, China e Rússia. Em recente reunião com empresários, foi muito otimista e amistoso nos comentários sobre a relação entre Estados Unidos e China e fez elogios fortes ao presidente chinês Xi Jinping. Obama o comparou a Deng Xiaoping, que presidiu a China entre 1978 e 1992. Foi seco e pessimista com relação à Rússia e Putin, a quem chamou de improvisador na política.

Sobre Xi, disse que “ele consolidou poder mais rápido e de forma mais abrangente do que todos os outros desde Deng Xiaoping. Todo o mundo está impressionado por sua influência na China após menos de dois anos”. É uma afirmação e tanto. Deng é considerado o maior transformador da China desde a revolução socialista conduzida por Mao e a revolução cultural de 1966 a 1976, que havia transfigurado o “maoísmo” quase numa religião de estado. Deng promoveu a “destruição criativa” da economia chinesa, iniciando o processo de criação de áreas de “capitalismo de estado” dentro do país, com zonas de livre comércio, privatizando boa parte da agricultura e do setor de pequenas e médias indústrias. Foi o período das “quatro modernizações”, que deu início ao ciclo de prosperidade e permitiu a ascensão da China à posição de potência global como a maior economia emergente do final do século 20 e das primeiras décadas do século 21. Deng liberalizou o regime político, criando a sucessão regular de mandatários, liberando a prática religiosa e modernizando as regras de conduta social, cultural e econômica. Mas foi o responsável pelo massacre da Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), em 1989, que provocou a morte de quase 3000 estudantes e intelectuais que pediam democracia.

Obama não poupou essa vocação repressiva, ao dizer que um controle político tão efetivo cria “riscos para os direitos humanos” e gera preocupação em relação à repressão de dissidentes. Ele se mostrou preocupado também com a nova onda nacionalista, que tem inquietado os vizinhos China e com as disputas marítimas no Mar da China Meridional. Mas, ressaltou o forte interesse que o governo chinês tem demonstrado em manter relações amistosas com o EUA, mesmo quando pressionado por Washington nessas questões.

Com a Rússia e Putin, entretanto, Obama adotou tom totalmente diferente e o contraste se transformou em uma afirmação política dura. Ele se disse muito menos otimista a respeito das relações com a Rússia e seu presidente. Caracterizou seu relacionamento com Putin como “muito direta, áspera e tipo só negócios”. Criticou a intervenção na Ucrânia, dizendo que “pode estar funcionando para Putin dentro da Rússia, mas está isolando o país completamente no plano internacional”. Disse que o presidente russo está improvisando politicamente, adotando posições nacionalistas atrasadas e causando medo e apreensão entre seus vizinhos. Segundo Obama, Putin é responsável pelos pesados danos que as sanções internacionais estão impondo à economia de seu país e que essas sanções têm, também, lesado a economia regional como um todo. Pôs tudo na conta do que chamou improvisações e reacionarismo de Putin. Ele também não vê possibilidades de mudanças na atitude do líder russo “até que a política interna passe a refletir a situação econômica”, deixando transparecer que prevê instabilidade política resultando da situação econômica em grave deterioração. Tudo indica que, quando Putin começar a perder apoio popular, Washington poderia apoiar alguma liderança de oposição.

No plano interno, o presidente diz que vai continuar insistindo em negociar com o Congresso de maioria republicana, principalmente, para tentar aprovar uma reforma do complexo sistema tributário. Quer simplificá-lo, reduzir impostos para pessoas jurídicas, que estão entre os mais altos do mundo, e criar benefícios tributários para famílias de trabalhadores assalariados, “não apenas para os contribuintes mais ricos e para as empresas”.

Com esta plataforma, surpreendente para um presidente na última metade de seu mandato e com minoria nas duas Casas do Congresso, Obama está mirando a história. Em parte já olha para depois de seu governo. E, para chegar lá, precisa pavimentar uma avenida mais brilhante do que a trilha que conseguiu traçar até agora.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

1 Comentário para "O último jogo de Barack Obama, por Sérgio Abranches"

  • Nilson B. Nunes 07-12-2014 (5:18 pm)

    Belo opúsculo da trajetória transparente do Presidente Obama. Fico a indagar, entretanto, a que o Sr. atribui a condição de ser ” um país então radicalmente protestante” ? Continua a sê-lo hoje ou já na época de Kennedy estava imbricado no ‘materialismo’ consumista ? Teria mesmo, o Presidente, perdido “tempo demais com o Medicare” ? O Sr. poderia justificar isso ? Um forte abraço.

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