Reverendo Uriel Leitão, meu avô, completaria 100 anos

07/12/2014 11h58m. Atualizado em 08/12/2014 09h18m

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O reverendo Uriel de Almeida Leitão construiu uma trajetória impossível, saindo de onde saiu: a pobreza extrema nordestina. Era tão pobre que há dúvidas: teria nascido em 1914 ou 1915? Os pais não se lembravam direito quando tinha nascido cada um dos cinco filhos que tinham, quando eles se converteram ao protestantismo e se casaram no civil e religioso. Na certidão de casamento veio junto o registro dos cinco filhos. Outros dois nasceram depois.
Ficou 1915 nos documentos. Todavia, acredita-se que foi 1914. Ele completaria 100 anos neste sábado (6). Para 2015 a família prepara comemorações dessa vida venturosa. Ele viveu até os 84 anos com uma história incrível de superação e doação de si mesmo.
Pastor presbiteriano, educador e escritor, licenciado em várias disciplinas, inclusive o latim, o reverendo Uriel foi alfabetizado aos 11 anos, época em que conseguiu uma bolsa e um emprego de faxineiro do renomado colégio XV de Novembro em Garanhuns, Pernambuco. Trabalhou desde então de empregado na feira a pintor de paredes para ajudar o pai no sustento da casa. O pai, analfabeto como a mãe, era pedreiro.
Após o seminário em Campinas ele fundou um ginásio em Caratinga, o primeiro da região. Depois ajudou no esforço de instalação de escolas públicas no interior de Minas. Como professor era admirado e um dos seus alunos foi Ziraldo, o cartunista. Era comum ir até a casa dos pobres e convencê-los a matricular os filhos distribuindo bolsas de estudo. Achava que assim estava fazendo com outros, o bem que lhe fizeram no colégio.
Uriel cuidou de cada um dos seus 12 filhos, dos netos que conheceu, incluindo este blogueiro, e de toda uma multidão de cristãos convertidos, e dos seus alunos.
Ele cuidou, ensinou, corrigiu, mas sobretudo amou as pessoas que o cercaram.
Era um homem sábio, um cristão liberal. Quando uma das filhas saiu da prisão, apontada como subversiva pela ditadura nos idos de 1973, Uriel deu um abraço acolhedor ao busca-la no quartel.
A filha estava grávida e, após as torturas nos porões, pesava 39 quilos. Trata-se da minha mãe, Miriam Leitão, e o bebê, do meu irmão Vladimir Netto.
Um abraço como esse é um aconchego como quem desembarca num oásis após atravessar o deserto. Numa época em que os pais ainda se constrangiam quando as moças tinham filhos antes do casamento, ele acolheu de novo a filha quando ela lhe contou que, ao ser presa, estava grávida.”Essa criança já sofreu demais”, disse em novo abraço.
Suas lições ficarão com aqueles que o conheceram. Fundou igrejas e escolas e não descuidou de nós, sua família. Feliz em saber que tive essa chance de tê-lo como avô.
Saudades? Sim, por suposto. Mas agradecimento é a palavra certa. Deixo aqui minha pequena homenagem.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

3 Comentários para "Reverendo Uriel Leitão, meu avô, completaria 100 anos"

  • Vânia Heringer 07-12-2014 (11:34 pm)

    Parabéns Matheus pela bela e justa homenagem ao seu avô! Sou mineira de Manhumirim e vivo há alguns anos no Rio. Tive o prazer de conhecer o Rev. Uriel e ouvir alguns dos seus sermões!
    Sou muito amiga do Ulisses Leitao e Simone Leitao!
    E gosto muito dos seus artigos!

  • Matheus Leitão
    Matheus Leitão 11-12-2014 (10:28 am)

    Obrigado Vânia Heringer pelas palavras mais que generosas.

  • Hugo 31-12-2014 (4:57 pm)

    Meu avô também faria100 anos em fevereiro de 2015. A saudade fica junto com o orgulho e a alegria de ter convivido com eles. Sei o que sente. Um abraço.

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