Miriam Leitão: O mistério do escuro

06/12/2014 06h29m. Atualizado em 07/12/2014 11h59m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Fiquei sem luz no fim da tarde. Ela foi embora, sem qualquer aviso ou cerimônia. Fiz queixas no Twitter. Alguns me consolaram e o compadre e vizinho Jorge Bastos Moreno me retuitou. Durou pouco o afago porque logo a Vivo ficou procurando sem se encontrar, a TIM nem se deu ao trabalho. Sem luz, com dois celulares mudos e o iPad sem conexão. Não podia tuitar, nem enviar mensagens. Poderia receber ligação telefônica, porque restava o velho aparelho fixo. Mas ele também era inútil, porque tenho uma central para abrigar a linha do escritório e a da casa. Sem luz, nada funciona.
No escuro apurei os ouvidos. Carros passavam na rua. Os vizinhos fizeram silêncio, exceto uma mulher que tossia. Um cachorro ao longe latiu, mas os outros moradores caninos do meu bairro não responderam. O resto era silêncio, em plena terça-feira. Tentarão falar comigo? Não saberei. Estão me mandando email? Quem sabe? E a rede, que novidades terá? Só quando a luz voltar poderei conferir. A bateria do computador começou a acabar. Fui sendo desligada do mundo para meu desconforto. Estava off-line, wireless e quase powerless.
Em Caratinga, na minha infância, a luz acabava com frequência e eram muitos, e barulhentos, os filhos da minha mãe. A empresa não se chamava Cemig. O nome era Companhia Força e Luz Coutinho&Pena. Isso foi antes da estatização em massa das centenas de empresas que se espalhavam por Minas gerando energia para as cidades. Antes das Centrais e muito antes do SIN, Sistema Interligado Nacional. Era boa, a nossa empresa de força e luz, a gente conhecia os donos. O único problema era ser a luz tão incerta. Quando acabava a força só nos restava esperar.
No escuro, a gente se sentava em volta da mãe e ela contava histórias. Os meninos se aquietavam. Ou todos conversavam, sem ver a cara um do outro para saber se era mentira das grossas, ou verdade pura, o caso narrado. A casa era grande e velha, tinha um enorme pé direito e o assoalho de madeira rangia ao andar. Um irmão tinha medo. Muito medo. Temia talvez pela culpa que carregava de ser o mais levado da turma. Eu gostava de escuro.
Achava aquele silêncio e o nada ver, apenas vislumbrar, um aconchego e um mistério. Andava pela casa atrás de algum susto, mas nada temia. Era um defeito ou uma qualidade minha? Não sei. Para os outros, o escuro era incômodo; para minha mãe, a única chance de descanso; para mim, a sensação de ser livre e estar protegida.
Fui uma criança estranha. Tímida, de pouco falar, de ler por horas a fio, de ter poucos amigos, de escrever muito, e com aquele esquisito prazer de andar pela casa quando a luz da Coutinho&Pena falhava. O que era frequente. Queria esticar o escuro e ficar lá, dentro dele, pensando no segredo que havia através daquele nada enxergar. Quando voltava a energia, todos comemoravam. Eu não.
A bateria do computador está acabando, e nada de a luz voltar, o que coloca um fim forçado a esta crônica. O que não acabará é essa saudade da minha mãe, rodeada pelos meus irmãos. Éramos, naquelas noites, apenas uma família feliz à espera da luz. E eu, livre, buscava o mistério do escuro, que ainda não desvendei.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

4 Comentários para "Miriam Leitão: O mistério do escuro"

  • Alba M R S Benito 06-12-2014 (5:11 pm)

    Adorei! Poder desfrutar do escuro, do silêncio, em boa companhia é precioso. Não há medo que resista!… Você retratou isso muito bem! Parabéns!

  • Solange Rangel 06-12-2014 (9:26 pm)

    Na minha casa, de muitas crianças, minha mãe cantava conosco. Tínhamos o mesmo problema de falta de luz constante. Quando o escuro vinha acompanhado de tempestade, não temíamos, pois mamãe estava sempre ali, cantando, contando “causos” e nós, seus filhos, ríamos felizes até a energia voltar e retomarmos nossa vida.
    Sua crônica me trouxe imagens vívidas. Obrigada pelo prazer de me fazer retornar àquele tempo feliz.

  • Celia Maciel 07-12-2014 (8:12 am)

    Miriam, como sempre, genial. Vc nos faz lembrar de tempos bons, onde a ingenuidade imperava, as brincadeiras eram salutares. Apesar de ter idade para ser sua mãe me identifico com tudo que vc diz e escreve. Seus comentários econômicos são concisos e compreensiveis. Parabéns

  • Miriam Leitao 07-12-2014 (11:54 am)

    Alba, Solane e Célia, obrigada por compartilharem comigo esse sentimento.

Comente

O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.