Diário de Lisboa: Com Pessoa e Cândido no Martinho da Arcada, por Clara Favilla

06/12/2014 06h18m. Atualizado em 09/12/2014 21h15m

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“Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.”

Nesta quinta-feira, 13 de junho de 2013, dia de Santo Antônio, padroeiro de Lisboa, a amiga Vanda Célia me lembra pelo twitter que é dia de celebrarmos os 125 anos de nascimento de Fernando Pessoa, que também é Antônio e também assinava Nogueira. Pensei, então, como celebrar tão feliz acontecimento. O simples fato de estar em Lisboa, a cidade que deu o poeta à luz, que se moderniza, se restaura e não perde a melancolia, a poesia, já não seria celebração suficiente?
Lisboa nos dá a exata medida, a clara consciência do fado de ser, de só ser e de não ser, tão presente nos versos de um poeta que não poderia ter mesmo outro nome: pessoa, persona, máscara. Pessoa, muitos em um só. Ser múltiplo expressado em seus heterônimos. Seres múltiplos também somos, cada um, mesmo sem explicitarmos a sina no próprio nome.
Pouco tempo antes dessa minha viagem transatlântica, confidenciei a um amigo que Voltaire havia desaparecido de minha estante. Procurei por Cândido e foi sem surpresa que o dei por escapulido mais uma vez de casa pra ganhar o mundo, como faz sempre, à revelia do próprio Voltaire. Mas, certo final de tarde, esse amigo me chegou para um café com Cândido devidamente preso pelo braço.
Cândido confessou-se desesperado por lonjuras e ficou muito empolgado em viajar de avião. Afinal, teria uma história área pra contar. Todas as que ele protagonizou com seus fiéis escudeiros e devidamente registradas, deram-se em terra firme ou no mar. Ou mesmo, aconteceram-lhe só na imaginação, sem que criador e criatura saíssem do lugar tal a sucessão de fatos vastos em território, em espaços, breves no tempo.
A viagem até Lisboa não foi nada tranquila para Cândido. Durante o voo, teve pesadelos com os infortúnios que viveu da primeira vez que aportou na cidade. Pra falar a verdade, sumiu de mim, logo que chegamos. Mas eis que o reencontro no Rossio, olhar perdido em direção às ruínas do Carmo que podem ser vistas da praça. Convidei-o para uma prosa num dos cafés frequentados por Pessoa.

Entrada do Martinho da Arcada, onde Fernando Pessoa teria tomado seu último café em em 29 de novembro de 1935

Entrada do Martinho da Arcada, onde Fernando Pessoa teria tomado seu último café em em 29 de novembro de 1935

Cândido lembra-me que não só de café era o poeta. Pessoa gostava mesmo era de substâncias mais fortes que cafeína. O gosto pelo álcool, o absinto de tantas viagens, nascido de alguns ou muitos desgostos, o levou à morte em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, um dia apenas depois de ser internado.
O primeiro diagnóstico foi morte por cirrose hepática. Mas dada a rapidez da evolução da doença, acredita-se, agora, que tenha morrido de pancreatite aguda. Morte precoce. Deixou um baú de poemas. Imagino se tivesse vivido tanto quanto Saramago. Pessoa não envelheceu em vida e nem depois de morto. Fala-nos como nos fala Machado com as palavras dos dias de hoje, dos dias de sempre.
Mas voltemos à celebração da vida do poeta.
Devo dizer, antes, que Cândido anda bem desconfortável em Lisboa. O passado pra ele não passa. Solta gritos de horror quando se descobre quase à beira do Tejo. É que chegou com seus amigos por esses cais, exatamente em 1º de novembro de 1755, quando o terrível terremoto, chorado em versos e prosa pela Europa e mundo afora, deixou a cidade em escombros queimados e inundados.
Desta vez, comigo, 258 anos depois, a terra não treme. Bancos e banqueiros tremem. A população não está aos prantos, mas canta um fado. Bandeiras vermelhas e brancas estampadas de foices e martelos tremulam no Rossio. Cândido, sempre atento ao tempo e ao vento, me perguntou que diabos faziam ali em pleno século 21. O Muro de Berlim não caiu no século passado? – pergunta de novo, num fio de voz, já temendo por espetáculos sangrentos.
Lembranças terríveis também dos autos de fé que presenciou, inclusive como réu, fazem Cândido tremer de frio em plena primavera calorenta. É que depois do terremoto, castigo divino, claro, a igreja quis purgar pecados, não os próprios, e recomeçou a perseguir, torturar e enforcar quem considerava herege. Cândido foi preso, mas conseguiu escapar da má sorte, depois de muito espancado
Não perguntei a Cândido sobre Pessoa porque o danado também é múltiplo na crítica. Usa a voz de outros, mas sempre ele mesmo, para desancar até os clássicos. Na verdade, para Cândido só existe um escritor digno deste nome no mundo passado, presente e futuro: Voltaire. Mas acho que em algum momento a criatura também desancará o criador. É fado. Está escrito.
A mesa no Martinho da Arcada, o café mais antigo de Lisboa. Aí Pessoa fazia eu escritório, escrevia e recebia amigos

A mesa no Martinho da Arcada, o café mais antigo de Lisboa. Aí Pessoa fazia eu escritório, escrevia e recebia amigos

Para não me alongar ainda mais, digo que já era tarde quando chegamos ao Terreiro do Paço e ainda sem almoço. Quase sete da noite, o sol brilhava. E, estando ali, o melhor lugar pra se celebrar o aniversário de Pessoa era no Café Martinho da Arcada, onde o poeta, diz a lenda, tomou seu último café. É também restaurante. Foi inaugurado, pasmem, em 1778, o mesmo ano da morte de Voltaire, 23 anos depois do fatídico terremoto que quase reduziu Lisboa a pó. Há quem diga que a inauguração se deu em 1792.
Cândido deu uma olhada no ambiente e logo ficou sabendo pelo maitre que até o ex-presidente Fernando Henrique passa por ali, quando em Lisboa. Saiu, então, imediatamente da condição de carrancudo, e me disse: “Tá vendo? Se não fosse o terremoto, não teríamos essa linda cidade baixa, fruto do desvario de Pombal. Nem teríamos essas arcadas e nem o Martinho da Arcada e nem poderíamos celebrar a vida deste tal Pessoa aqui. Mesmo o maior mal pode produzir o maior bem, um mundo melhor”. Eu fiquei estarrecida, vendo, de repente, Candido incorporar Pangloss.
Candido 1
Bem, passado o susto, só me restou concordar com o Cândido que, de repente, se revelou ótima companhia. A vida segue seu curso inexorável. Nada sabemos qual o fado do dia seguinte. Abrimos, então, a cortina de veludo vermelho que separa o café do restaurante. Lá estava a mesa com tampo de mármore, onde Pessoa foi tão fotografado. Perto, a melhor mesa para dois estava reservada. Pedimos ao garçom que fosse retirada a marcação intrusa porque resolvemos que aquela mesa estava ali para nós, ao lado de uma janela especialmente desenhada para acompanharmos o movimento sob as arcadas e o da praça.
Pedimos Polvo a Lagareiro de prato principal. Vários petiscos e um caldo verde de entrada. E brindamos a vida de Pessoa com várias taças de vinho verde geladinho, com outras de água mineral, duas doses do melhor café e, pra dar ainda mais graças ao poeta, vinho do Porto para finalizar.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "Diário de Lisboa: Com Pessoa e Cândido no Martinho da Arcada, por Clara Favilla"

  • Rosa 06-12-2014 (4:00 pm)

    Que bom Clarinha q vc resolveu escrever aqui suas impressões de viajante. A linda Lisboa assim ficou mto mais interessante, mas tb em tão ilustre companhia! Parabéns pra vc e pra Matheus . Bjos e sucesso
    Ah! Adorei sua bio acima

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