Tortas e Chaves, por Débora Thomé

05/12/2014 22h00m. Atualizado em 07/12/2014 11h59m

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Na primeira vez em que fui ao México, parti com um único pedido de amigo para as férias: “me faz um favor: descobre por que o Chaves só gosta de torta de presunto? É um prato típico?” O personagem, cujo ator que lhe deu vida faleceu há uma semana, foi o meu primeiro contato com a cultura mexicana, junto com as Chispita, lá pelos idos dos anos 80. Lembro tanto deles quanto das imagens do terremoto de 85. Não gostava de nenhum dos três.

No processo de luto internético que se sucedeu a morte de Chaves/Roberto, comecei a receber textos e sinais conflitantes de Brasil e México. Como se “El chavo del ocho” (o garoto do – canal – 8), como o personagem é conhecido em terras mexicanas, não se tratasse do mesmo Chaves que, sem querer querendo, acompanhava na TV com meus irmãos menores.

O ápice desta história veio na reportagem do El Financiero, que fez questão de descrever como Roberto Gomés Bolaños, o ator, endossou governos ditatoriais no Chile e na Argentina. Com seu sucesso, lotou estádios, inclusive o Nacional de Santiago, palco de tortura e morte de centenas de jovens nos anos 70.

LINK REPORTAGEM: http://www.elfinanciero.com.mx/after-office/chespirito-y-las-dictaduras-de-al.html

Diante do tema, percebi que essa diferença do Chavo para o Chaves era algo muito mais complexo.

Alguns fatos que consegui apurar: nos anos 50, quando a TV chegou ao México, as concessões dos canais 2 e 5 passaram a ter como um dos acionistas Miguel Alemán Velasco. Velasco era filho, nada mais nada menos, que de Miguel Alemán Valdés, então presidente do México pelo PRI, partido que controlou com afinco a presidência por mais de 70 anos.

Duas décadas depois os dois canais se uniram ao canal 8, que levou no pacote o já famoso “Chavo”. A festa se completou com o canal 4. Criaram a ultrapoderosa Televisa. Não à toa, quando se ligava a TV aberta lá, era Televisa 1, 2, 3 e 4. Só dava ela.

Uma parte da intelligentzia, não apenas por uma questão política, mas também porque considerava as piadas excessivamente emburrecedoras, chegava a proibir os filhos de verem o programa. Nada de Chilindrina, Don Ramón ou de Doña Florinda. Vários amigos simplesmente não tinham esse hábito – ou esse amor. Já a massa os adorava!

PARA LINKAR NOS PERSONAGENS: http://www.chavodel8.com/personajes/

No Brasil, Chaves teve outro destino. Era ele o programa do canal que anunciava girocóptero, creme para alisar henné e o saldão das Casas Bahia. Isso depois da corrida de cavalinhos do Bozo. Resultado: Chaves foi parar na contracultura. Com sua imagem lavada, suas viagens não realizadas para Acapulco, ele trazia um pouco da latinidade que passava longe de outros canais. Era ali que tínhamos notícia de uma gente que se parece com a gente nas mazelas (e nos encantos), mas que sempre nos foi tão alijada. Tanto devido à excessiva oferta de produtos dos Estados Unidos, como também pela boa qualidade do produto televisivo brasileiro.

No fim das contas, o Chaves que se viu – e se vê, ainda com recordes de audiência para o horário – aqui e no México tem duas histórias muito diferentes. No Brasil, nunca soubemos que ele apoiava Pinochet ou o argentino Jorge Videla. Nunca foi transmitido num canal de TV cujo presidente afirmou certa feita: “Somos soldados do PRI e do presidente”. Ao contrário, o Chaves sempre foi o primo pobre, com suas piadas repetidas e roupa surrada.

Aliás, são diferenças como a torta de presunto. Lá, torta é sanduíche. E a torta brasileira, é tarta no México. Bolo é chamado de pastel. Mas isso já é outra história.

Débora Thomé

Débora Thomé é jornalista, mestre em Ciência Política. Autora de “O Bolsa Família e a social-democracia” (Editora FGV). Um dia se descobriu latinoamericana e nunca mais deixou de acompanhar a região.

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