Venda de acervo de Gabriel García Márquez provoca mágoa no povo colombiano

02/12/2014 20h51m. Atualizado em 10/12/2014 23h03m

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Colombianos receberam com desconforto a notícia de que a família de Gabriel García Márquez vendeu o acervo pessoal do escritor para a Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

A coleção é composta por duas máquinas de escrever, cinco computadores e um número estimado de 2.000 cartas trocadas com outros escritores como Julio Cortázar, Milan Kundera e Graham Greene.

Na Colômbia, Gabriel García Márquez é considerado um herói nacional. E a relação do escritor com o Estados Unidos nunca foi das melhores.

Por conta do ativismo político do escritor e sua oposição da política aos embargos dos Estados Unidos a Cuba, e amizade pessoal com Fidel Castro, Gabriel García Márquez passou três décadas impedido de entrar em solo americano, decisão revogada em 1995 pelo presidente Bill Clinton.

A polêmica tornou-se pública, quando um dos dois filhos de García Márquez justificou a venda do acervo porque a Colômbia nunca teria feito qualquer tentativa para obter a coleção. “O governo da Colômbia não estava interessado”, disse à imprensa local.

A declaração foi rebatida pela ministra da Cultura, Mariana Garcés, que lamentou que o país natal do escritor não vai abrigar sua obra. “É uma grande pena para a Colômbia não tê-lo”. A diretora da Biblioteca Nacional da Colômbia, Consuelo Gaitán, reiterou que sequer houve negociação com a Colômbia.

“Não conseguimos fazer nenhuma oferta porque eles haviam decidido que fosse para os Estados Unidos, incluindo arquivos acadêmicos universitários”, disse Gaitán. O perfil do Twitter do ministério da Cultura reforçou a mesma ideia: “Eles [os membros da família] disseram que era muito cedo depois de sua morte para falar sobre isso. Colômbia não recebeu qualquer proposta”.

Nesta segunda-feira (1o), durante a Feira Internacional do Livro em Guadalajara , o presidente da Fundação de Jornalismo para a América Latina Gabriel García Márquez, Jaime Abello Banfi, defendeu a venda do arquivo pela família, dizendo que o legado de Márquez transcende o acervo material.

“O legado é muito mais do que alguns papéis. Há um legado de idéias. A Fundação é parte de seu legado,a escola de cinema de Cuba, o Cartagena Film Festival. Sua própria obra literária é um legado que permanece para o povo “, disse Jaime Abello.

A coleção de Gabriel García Márquez inclui o manuscrito original de obras clássicas como “Cem anos de solidão”, “O amor nos tempos de cólera” e “Memórias de minhas putas tristes”, além da obra inacabada “Em agosto nos vemos”.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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