Desmatamento e morte na floresta: assuntos incômodos na reunião climática

29/11/2014 13h37m. Atualizado em 10/12/2014 23h05m

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O Peru que vai sediar a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, no mês que vem, é o quarto país que mais mata militantes ambientais. Isso quem diz é a Global Witness que contabiliza 58 assassinatos entre 2002 a 2013. Para quem se escandalizou com o número, um dado pior: o Brasil é o campeão desse ranking.

Um texto de Alex Soros do Project Syndicate publicado no Estadão desta sábado (29) conta o assassinato em setembro de Edwin Chota e três outros membros da Comunidade Asháninka, numa emboscada, quando viajavam, na floresta que protegem, para se encontrar com seus amigos no Brasil.

Os Asháninka são uma comunidade indígena que tem membros morando no Peru e no Brasil. São conhecidos como protetores de florestas. A viúva de Edwin precisou viajar seis dias para chegar à capital da região no Peru e comunicar as mortes.

E por falar na reunião da mudança climática de Lima, foi com olho nela que o governo esta semana divulgou os dados de desmatamento. Só que o fez usando uma estratégia: destaque apenas para o dado que favorece o governo.

Primeiro, divulgou o número do sistema Prodes que contabiliza o dado anual de agosto de um ano a julho do ano seguinte, mostrando uma queda de 18% em relação ao desmatamento do período anterior.

O dado não animou os especialistas. Primeiro porque ainda é alta, 4.888 km2 de mata destruída no período e nem chega a anular a alta de 29% do ano anterior. Segundo, porque o Imazon, instituto brasileiro independente que acompanha esse assunto, já vinha alertando que a destruição da floresta se acelerou nos últimos meses.

Quem cobriu esse tema com atenção ajudando a decifrar os números e a estratégia do governo foi Marcelo Leite. Ele mostrou que o governo escondia esses dados mensais do sistema Deter. Na sexta, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgou que em agosto, setembro e outubro de 2014 o Deter registrou que foram desmatados 1.924 km2. Foi esse dado que o governo não divulgou no período eleitoral. E mesmo agora o release do INPE diz que não se recomenda comparações com anos anteriores. Coube de novo a Marcelo Leite fazer a conta: 122% de aumento.

A morte da floresta amazônica, e as mortes na floresta são notícias incômodas, que os governos preferem subestimar. Principalmente em época eleitoral ou quando o mundo se prepara para discutir a mudança climática onde sempre se conclui que a preservação das matas é fundamental para a proteção do planeta.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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