Lisboa revisitada: O que fazer enquanto se espera pela liberação do quarto de hotel?

29/11/2014 06h15m. Atualizado em 09/12/2014 21h18m

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Por Clara Favilla

Uma das coisas que podem aborrecer muito quem chega a Lisboa, vindo do Brasil, é aterrissar lá bem cedo e os quartos dos hotéis estarem livres apenas a partir das 14 horas. E a regra vale para todos os tipos de hotéis. Depois de horas no aperto de uma poltrona da classe econômica, tudo que o pobre mortal quer é uma boa chuveirada, um bom café da manhã porque o servido a bordo está cada vez mais desprezível, e algumas horas na horizontal em uma cama confortável e limpa, antes de se atirar à aventura de andar em uma cidade estrangeira. Sim, sempre é uma aventura se estar em cidade que não é a sua, mesmo nas que dispensam legendas.

Agradeça aos céus ter chegado são e salvo e esqueça essa lista urgente de desejos. Você chegou rapidamente de taxi ao hotel. Não sofreu com o trânsito e a quantidade de euros dessa primeira despesa de locomoção, nem foi tão grande assim. Você conseguiu hotel cinco estrelas pelo preço de um de três. Havia quem te esperasse para abrir a porta do taxi e carregar a bagagem. A recepcionista é simpática. Mas não são ainda nem sete horas e, mesmo depois do check-in feito, não lhe darão a bendita chave do teu quarto. O que fazer?

Na verdade, a aventura de se visitar uma cidade estrangeira começa bem antes de se chegar ao hotel, ou mesmo ao aeroporto de origem do voo. Por isso, esteja sempre de mente e coração abertos. Afinal, chatear-se para quê? Se o taxista é um bronco que não fala, grunhe, aproveite o que vê da janela. E olha só! Bem ali, um dos postais de Lisboa: o Aqueduto das Águas Livres com seus arcos que se erguem sobre o Vale de Alcântara, que abriga um pequeno curso d’água, canalizado, que nasce em Amadora, Distrito de Lisboa, e deságua no Tejo. O Aqueduto foi construído durante o reinado de Dom João V e ampliado ao longo do Século 19. Resistiu bravamente ao terremoto de 1755, que arrasou Lisboa. Está ali, a explicitar a história da cidade aos visitantes e moradores. Desde março de 2012, está reaberto para visitações públicas guiadas.
Chegando ao hotel, uma boa providência, já que não terá acesso imediato ao quarto reservado, é se deliciar, se ali mesmo, caso compense, com o café da manhã ou pequeno almoço como essa primeira refeição do dia é conhecida em Portugal. Depois do café e de um reconhecimento dos serviços oferecidos pelo hotel, é hora de uma caminhada que deve durar algumas horas. No meu caso, o hotel ficava em uma das áreas mais aprazíveis. Bem em frente ao parque Dom Eduardo VII com sua belíssima esplanada verde e algumas centenas de passos da Praça Marques de Pombal.

Acima do Parque Dom Jaime VII, fica o lindo Jardim Amália Rodrigues, fadista famosa no mundo inteiro. Nascida em 1920, a cantora, conhecida como a voz de Portugal, morreu em outubro de 1999, repentinamente em Lisboa, logo depois de retornar de uma temporada no Algarve. No Jardim Amália Rodrigues há um recanto em estilo japonês e uma grandiosa escultura de Botero: Maternidade. Estranhamente, na escultura de Botero, a mãe olha em direção diferente a da criança.

Escultura Maternidade - Botero

Clara Favilla

No topo do Parque Eduardo VII, está o Monumento 25 de Abril, data Revolução dos Cravos que restabeleceu, em 1974, a democracia em Portugal. O autor é João Cutileiro e a proposta foi romper com a tradicional cultura monumentalista da ditadura salazarista. Foi construído sob o pedestal de uma estátua equestre do Santo Contestável, como ficou conhecido Nuno de Santa Maria, figura fundamental para a independência de Portugal do Reino de Castela, resultado da crise de 1383/1385.

Depois de viúvo, o Contestável tornou-se religioso, tendo sido beatificado pelo Papa Bento 16, em 2009. O monumento é feito de fragmentos de pedra sob um espelho d´água e em seu cetro há um cravo estilizado. Confesso que é bastante difícil entender esse cravo e o monumento que instaurou grande polêmica em Portugal, desde sua inauguração em 1997, me pareceu bastante estranho. A polêmica não é política. Grande parte dos portugueses considera o monumento uma evocação fálica.

O parque Dom Eduardo VII foi inaugurado em 1903 e o nome homenageia o, então, rei da Inglaterra que visitou Portugal para reforçar a aliança entre os dois países. O Parque é uma grande área de lazer com lagos, bares e restaurantes. De sua parte superior pode-se admirar toda a Baixa Pombalina, assim chamada a região reconstruída após o terrível terremoto de 1755. Tem-se também uma linda vista do Tejo que por uma ilusão de ótica parece estar acima dos edifícios

Situada entre a Avenida da Liberdade e o Parque Eduardo VII, a Praça Marquês de Pombal é uma das praças mais notáveis e históricas da cidade. Após o grande terremoto de 1755, o Marquês de Pombal foi responsável, no reinado de Dom José I, pela planificação e reconstrução de Lisboa. A expansão da cidade para Norte, a partir do século 19, deslocou o centro da cidade do Rossio pra essa praça que tem, bem no centro, o monumento ao Marquês, inaugurado em 1934. No topo da coluna central, ele impera com a mão pousada num leão (símbolo de poder) a contemplar a sua obra prima: a Baixa Pombalina de Lisboa. Na base do Monumento estão representadas reformas implementadas durante seus anos de poder nas áreas política, social e agrícola.

Escultura do jardim próximo à Praça Marquês de Pombal

Clara Favilla

Bem, depois desse giro, voltei para o hotel e ainda precisei aguardar, por pelo menos uma hora, meu quarto ficar pronto. Mas a espera compensou. O quarto era simplesmente maravilhoso! E da ampla janela Lisboa, sempre amada.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

8 Comentários para "Lisboa revisitada: O que fazer enquanto se espera pela liberação do quarto de hotel? "

  • Miriam Leitao 29-11-2014 (7:43 am)

    Clara, adorei nesta manhã de céu encoberto no Rio viajar no seu artigo por Lisboa. E me deu uma vontade enorme de voltar. Me lembrei que quando visitei Lisboa pela primeira vez, ouvia um show de fato e comecei a chorar. Um amigo me perguntou: por que choras? Respondi: saudade atávica. A saudade voltou todinha ao ler seu artigo. Adoro seus relatos de viagem. Um beijo, feliz por saber que te encontrarei aqui. Miriam Leitão.

  • Graça
    Graça 29-11-2014 (7:44 am)

    Clarinha, adorei !

  • Márcia Ruiz 29-11-2014 (9:50 am)

    Simplesmente uma delícia de texto. : )

  • Cleide Castro 29-11-2014 (6:17 pm)

    Não só revisitei Lisboa, viajei no seu maravilhoso texto, amiga!!! Bjo.

  • Raquel Ramos 30-11-2014 (7:41 am)

    Clara, tenho como “princípio” que a viagem começa quando saio de casa para encarar um aeroporto. Ali já começo a ter prazer em tudo,. Na chegada ao destino, começar por conhecer a região próxima do hotel, certamente é a coisa mais acertada. PERFEITO. Grande abraço. Raquel superlinda.com

  • Vladimir Netto 30-11-2014 (11:19 am)

    Clarinha, me senti passeando por Lisboa! Vou guardar esse teu texto e ler de novo quando for à Portugal. Muito bom! Quero fazer esse passeio enquanto espero meu quarto. :) Bjs!

  • beth milward leitao 30-11-2014 (3:04 pm)

    Amei o seu texto Clara, amo Lisboa e você clareou pra o incomodo de chegar e não encontrar a cama. Afinal não fica bem pra ” uma casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa”…é chegar e entrar no clima de nossas heranças atávicas. Obrigada por compartilhar o seu texto!.

  • margrit 02-12-2014 (8:49 am)

    Clara, nada como saber fazer dos limoes, limonadas! E depois partilhar essa sabedoria ao contar-nos o passeio nas horas vagas da espera pela limpeza do quarto! Ainda mais na adoravel Lisboa! Quero voltar! Beijo.

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