Do dia em que FHC teve que depor na Polícia com capuz na cabeça

28/11/2014 14h40m. Atualizado em 30/11/2014 08h09m

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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu um depoimento à Comissão Nacional da Verdade sobre a perseguição que sofreu durante a ditadura militar (1964-1985). É importante para a História e serve para mostrar como a ditadura perseguia mesmo pessoa que não estava ligada a qualquer organização clandestina. O conteúdo do relato, que durou uma hora, foi divulgado nesta quinta-feira (27).
Nele, FHC detalhou depoimento que deu em um centro de tortura do Exército, encapuzado, mas tratou também da vida no exílio e até da aposentadoria forçada na Universidade de São Paulo. Era catedrático, muito jovem, mas foi obrigado a se aposentar.
Ele disse que não foi torturado, como muitos outros perseguidos do regime, caso da atual presidente Dilma Rousseff. Mas FHC denunciou, à época, os maus tratos sofridos por alguns companheiros presos. “Hoje, todo mundo virou democrata, naquela época era muito difícil. Qualquer gesto era arriscado e de coragem”.
Fernando Henrique ponderou dizendo que o sofrido
por ele “não é nada [se comparado] com o que aconteceu com milhares de pessoas”. Na entrevista, ele contou que tiraram a sua “fotografia, como se” fosse criminoso. “Me puseram um capuz na cabeça quando eu entrei lá e passei 24 horas”. Em entrevista à jornalista Miriam Leitão, em setembro de 1984, publicada na revista Playboy, FHC já havia detalhado parte desse dia. Na ocasião, o então senador disse: “A outra vez que tive com os militares foi na Oban (Operação Bandeirante), depondo e com capuz na cabeça, mas nem neste momento apelei para as minhas ligações de família, que são muitas no Exército”. Vários parentes do ex-presidente seguiram carreira militar. A família tem tradição na carreira.
À Comissão da Verdade, Fernando Henrique detalhou esse dia: “foi uma loucura comigo. No interrogatório, que não terminava, primeiro eu não entendia, porque eles viam com coisa sobre líderes trotskistas, uruguaios e argentinos. Eu não tinha a menor ideia.”
Sobre o período que passou no exílio, FHC afirmou que brincava à época que serviam caviar, mas era amargo. “Em que sentido isso é amargo? Você vive a maior parte do tempo imaginando o que está acontecendo no país seu. Romantizando, vendo chances, oportunidades, que não se concretizam, raramente se concretizam, e na expectativa de que tudo vai mudar.”
O ex-presidente revelou ainda que soube pelo rádio, quando estava indo para a Universidade, que havia sido cassado da USP como professor catedrático.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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