Exclusivo: A história de dois homens e de uma morte na Suíça

25/11/2014 16h10m. Atualizado em 26/11/2014 14h57m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Por Valéria Maniero
No dia em que ia morrer, ele foi à academia como sempre fazia, mas à noitinha, não pela manhã, o que surpreendeu o professor de Educação Física. Que se lembra dele como o senhor que o cumprimentava com um aperto de mão daqueles fortes. Que mais tarde foi o sujeito que tentou reanimá-lo, devolver-lhe a vida, quando foi encontrado inconsciente na sauna da academia. “Enquanto tentava reanimá-lo, eu dizia pra mim mesmo: reaja, reaja!”, me disse em espanhol o professor, um colombiano que mora na Suíça, ainda atordoado com tudo o que viu. Mas o senhor não reagiu. E o professor não conseguiu dormir aquela noite.
Na recepção, sinais de que alguma coisa estava fora da ordem suíça. Havia mais gente do que de costume esperando para ser atendida. E só uma pessoa para dar informação. O outro que era para estar ali chegou em seguida, esbaforido, e fuçou no computador. Encontrou uma foto. Olhei aquilo e percebi que a rotina tinha sido quebrada. Mas fui a única que tentou entender o que estava acontecendo. Alguns permaneceram em silêncio, esperando; outros continuaram teclando no smartphone.

5a83f7461ff7279d91fb9c98c9c80c27
Foi aí que médicos chegaram numa ambulância e, logo depois, a polícia. Entraram às pressas naquele ambiente que não combina com farda nem uniforme, a não ser que seja ele de fitness. Como ninguém perguntou, ninguém respondeu. O corpo do senhor só foi retirado de lá tarde da noite, quando já não havia mais ninguém para presenciar um cadáver deixando um espaço ligado à vida.
Mas ninguém sai de uma experiência dessas do mesmo jeito. No dia seguinte, o professor tinha os olhos tristes. Quando a realidade impõe coisas dessa magnitude, aquelas frases todas que a gente ouviu um dia da mãe, do pai, do tio, são ditas por você. O professor, então, relembrou ali, no presente, o que havia escutado em outro tempo e lugar. E se questionou sobre a vida e a morte.
“A gente não pensa nisso (na morte) até acontecer com alguém por perto. Imagine só: ele deve ter saído de casa, se despedido da mulher e não voltou. A pessoa sai e não volta mais. A senhora (a esposa dele) ligou depois perguntando sobre o marido. A gente não pôde dizer nada, porque é a polícia que dá esse tipo de notícia. Me lembrei de uma coisa que a minha mãe sempre disse: que temos que viver em harmonia. Porque a gente sabe o dia que nasce, mas não quando vai morrer”, afirmou.
O homem que esteve com aquele senhor pela última vez anda se questionando sobre a brevidade da vida, depois de ter visto a morte. Não gosta de ver a foto do senhor no computador da academia, mas lembra que, sempre quando ele chegava por lá, lhe dava um forte aperto de mão. Essa é a lembrança que ficou.
Estava pensando em escrever sobre como funcionam as academias de ginástica na Suíça porque há peculiaridades interessantes. Mas aí veio a notícia. A imposição da realidade. E isso é jornalismo. Que o homem que tentou salvar a vida daquele senhor, que eu não sei quem é e nunca vi, consiga voltar a dormir. Que o senhor descanse em paz. E a gente valorize a vida que tem.

Valéria Maniero

Valéria Maniero é formada em Jornalismo com especialização em Relações Internacionais. Gosta de gente e das coisas do mundo. Atualmente, mora na Suíça.

    Comente

    O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.