Campeão, Hamilton copia gesto de Ayrton Senna, seu herói

24/11/2014 12h01m. Atualizado em 30/11/2014 22h13m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Lewis Hamilton, o novo bicampeão do mundo de Fórmula 1, repetiu neste domingo (23), o gesto do seu ídolo de infância: o brasileiro Ayrton Senna da Silva. Ao ser campeão, recebeu da torcida uma bandeira do seu país e desfilou com ela até o pódio. A imagem me fez lembrar Ayrton.
Como mensurar a falta de alguém como ele? Ayrton não era somente o sonho de um povo por vitórias. Era o sonho dos valores corretos para obtê-las, escassos nos dias atuais.
Ayrton nos uniu como povo. Enquanto viveu, representava aquilo que podíamos ter de melhor. No fundo, nos ensinou que o brasileiro era melhor.
Em 84, aos seis anos, impulsionado por meu tio Ricardo Leitão a ver corrida de carros, assisti o branco quase oval da Toleman não chegar em primeiro em Mônaco. Mas ao olhar o rosto fechado de Ayrton no pódio, após ter sido roubado, sabia que algo grandioso estava por começar.
Ano após ano, cresci colado na televisão aos domingos vendo ele transformar-se em um dos maiores esportistas de todos os tempos. Havia uma certeza, independente da vitória. Haveria raça, entrega e sabor de suor do começo ao fim.
O carro preto da Lotus leva-me até hoje ao simbolismo do verde-amarelo. O contraste com o capacete brasileiro deixou a digital em mim do valor da pátria e de suas cores.
Entendi no Senna o significado do verso “verás que um filho teu não foge à luta”. Perfeito para ele, tive a certeza da importância da nação ao vê-lo levantar a bandeira com uma mão e dirigir com a outra. Aliás, guiando assim, assim mesmo ele nos guiava.
A minha geração sentiu sabores especiais, e sei que outras também sentiram. Todavia, ninguém representa valores e virtudes nas vitórias como Ayrton Senna.
Após chorar, o atual campeão Hamilton deu a seguinte declaração em entrevista há alguns anos: “Quando alguém cita o nome dele e o meu nome na mesma frase, fico honrado. Mas nunca vou me comparar a ele. Ele está em um nível que ninguém vai chegar perto. Para mim, foi o melhor piloto de todos os tempos”
Sim, ele foi. Mas Ayrton também foi exemplo. Com ele, não haveria cambolhata na rampa do palácio, mas a embriaguez da alegria por levantar a bandeira ou até o troféu, no esvaziar da força.
O ponto é: toda criança procura um herói. A minha geração presenciou um grande nascer.
No carro vermelho e branco vimos a leveza do homem capaz de mudar o mundo. Cercado de fãs ao redor do Mclaren, numa das mais belas cenas, com os dois braços para cima, de pé, nos brindando no meio do povo. Como gritei, como gritamos juntos pela vitória do Brasil no Brasil.
Ayrton parecia mostrar ao brasileiro que era preciso sempre prosseguir mesmo no meio das torrenciais chuvas que nos atingiam na economia, na política e no social. Guiando em situações adversas, enquanto a água que caia quase o impedia de ver, ele nos impulsionava a seguir como nação em busca de tempos melhores.
No meu caso, Senna me fez não desistir de lutar contra a asma, doença forte que assolou o meu corpo. Quando ela vinha, era como se a tempestade chegasse aos meus dias. Doía, massacrava, dormia sentado, sem forças.
Mas quando ele vencia por apenas meio carro, ou dirigia com uma marcha, sabia que tudo era possível.
Com a asma, minha percepção da vida (apenas percepção) era de que algo sempre faltava – até o ar.
Ayrton representava aquilo que ajudava completar. Isso, posso dizer, era real.
O carro azul e branco até hoje dói na minha memória. A esperança era a de que ele continuaria ali alimentando os meus sonhos – era o melhor piloto no melhor carro, juntos.
Hoje recordo aquele domingo, há 20 anos. Cortado por um momento que marcou a minha alma, lembro que antes da corrida comprei pão, voltei e tomei café da manhã.
Me preparei sozinho para aquele momento, como meu tio Ricardo ensinara.
Minha mãe escreveu certa vez que me encontrou, adolescente, em extrema aflição naquele dia. Era extrema aflição mesmo. Escreveu ela: “Sozinho, ele vira o acidente e me contou detalhes, afirmando que Ayrton Senna estava morto. Perguntei se a notícia era oficial. Ele disse: ‘ainda não, mas eu tenho certeza. A batida foi violenta demais.’”
Tinha 16 anos quando Senna nos deixou. Nunca o conheci pessoalmente, mas senti como se fosse minha família sem um elo. Enquanto chorava naquele dia, meu pai me deu um conselho de… pai. Mandou, pelo telefone, eu ir — me arrastando que fosse — para o Maracanã naquela tarde. Quando ouvi a torcida gritar “ole, ole, ole, olá, Senna, Senna”… gritei junto e chorei.
Não haveria mais domingos de sol ou de chuva, de corridas e lutas ou de esperanças por dias melhores – com o campeão. Não haveria mais Ayrton para me empurrar contra a asma que ainda me doía e me assolava.
Outro dia, um amigo finlandês, Joose Palonen, editor-chefe da maior revista de esportes da Finlândia, me ligou para dizer que a capa da revista era o Senna. Não só ele, mas aquilo que ele representa.
Um herói de verde amarelo azul e branco. O herói do novo campeão, Lewis Hamilton.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

4 Comentários para "Campeão, Hamilton copia gesto de Ayrton Senna, seu herói"

  • Rafa studart 25-11-2014 (10:15 am)

    Chorei lendo as suas palavras…..foi um ídolo completo.

  • Adriano 25-11-2014 (10:56 am)

    Eu notei que ele ergueu o troféu com uma mão só, gesto parecido com o de Senna na corrida de Interlagos apenas com a 6° marcha.

  • Matheus Leitão
    Matheus Leitão 25-11-2014 (3:13 pm)

    Obrigado grande Rafa Studart. Vc tem razão. Foi um ídolo completo. Adriano, é verdade. Acho que era quinta marcha, mas não importa. Ele foi incrível naquela corrida. Abraços.

  • jambra 25-11-2014 (7:55 pm)

    Ídolo, amigo, não heroi

Comente

O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.