Carimbo trocado impede cidadão de receber seguro-desemprego

23/11/2014 08h55m. Atualizado em 10/12/2014 23h09m

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Na fila do seguro-desemprego o que mais se reclama não é da falta de… emprego, mas da complexa engenharia burocrática do Estado.
O benefício, fundamental em momento extremamente difícil e muitas vezes o valor que sustentará uma casa por meses, pode se perder entre carimbos, papéis e gavetas.
O blog presenciou como um carimbo errado, feito pelo empregador, pode iniciar uma penosa caminhada atrás do benefício de assistência temporária após a demissão.
Momento de maior desamparo financeiro, é o caso de Igor Ferreira Lima (ao fundo, em pé) que trabalhava na matriz de uma empresa, mas o carimbo na carteira foi registrado com o da filial.
Começou, segundo ele, um suplício que já dura cinco meses, justamente o período que todo o trabalhador brasileiro tem o direito a apoio do Estado após ser demitido sem justa causa.
Igor já recorreu — procedimento normal nesses casos. “Primeiro falaram que era 45 dias para resolver. Após o período, disseram que era 60 e aí fui lá de novo e disseram que é 120 dias. Já peguei o carimbo certo da empresa, mas não adianta. Só para analisar é um prazo desses. Aí, nesses 120 dias você vai viver como?”. De empréstimos e ajuda de familiares.

Matheus Leitão

Matheus Leitão

O desemprego no Brasil caiu em outubro. Todavia, entre os jovens como Igor, de 23 anos, o índice de desemprego – 15,3% — é alto.
A porta da delegacia do trabalho é cheia e tensa. Mericiana Veríssimo Alves vive outro problema sem solução imediata. Integrante de um conselho de representação de classe por sete anos, ela foi confundida com uma funcionária pública pelo Estado e, por lei, teve os valores já depositados (de dois meses) suspendidos.
Mericiana quer reverter o quadro tentando provar que não era servidora. Enquanto Igor apontava o erro do carimbo ao servidor da delegacia regional do trabalho, ela estudava o artigo 37 da Constituição Federal, que trata justamente da administração pública direta e indireta.
Criado em 1986, apenas na Constituição de 1988 o benefício passou, além de prover assistência financeira temporária ao desempregado, auxilia-lo na busca de outra ocupação.
Em 2014, um reajuste no benefício fixou o teto em R$ 1.304,63. O temor agora é: o que o governo pretende fazer com o auxílio? O ministro da Fazenda Guido Mantega colocou uma pulga atrás da orelha dos trabalhadores ao falar que poderá reformatar o auxílio
Luiz da Silva Martins parece estar preocupado. Dispensado de uma panificadora em Taguatinga, cidade satélite de Brasília, receberá a primeira parcela em 11 de dezembro.
O Brasil não é Luxemburgo, país onde os desempregados ganham 84,2% dos salários anteriores por um ano, mas o benefício é uma vitória do trabalhador brasileiro.
Ao ouvir a história de Igor e Mericiana, Luiz temeu o pior: também ser tragado pela intrincada burocracia de carimbos e papéis brasileiros. “Na verdade, preciso do dinheiro. Vou cuidar da saúde agora, não estou em condições de fazer nada”. Nem mesmo lutar por um carimbo certo. Ainda bem que não houve problemas burocráticos no caso dele.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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