O enigma chamado Putin

23/11/2014 08h33m. Atualizado em 10/12/2014 23h54m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Sérgio Abranches

Engana-se quem vê o conflito entre Rússia e Ucrânia como uma questão puramente local ou regional. Errou quem aconselhou a presidente Dilma Rousseff a dizer que se trata de uma questão interna, sobre a qual o Brasil não tem que se manifestar. Não é uma questão interna. Tornou-se um problema global, não apenas por causa da sua dimensão humanitária, só depois do cessar foto de 5 de setembro já morreram mais de 1000 pessoas. Mas porque há uma dimensão política global inescapável: a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em encontro recente com o presidente da Georgia, Irakli Garibashvili, disse que Putin está promovendo uma política expansionista, à la União Soviética, que ameaça o equilíbrio geopolítico e a Europa. “Não se trata apenas da Ucrânia, trata-se da Moldávia, da Georgia e, se continuar assim, haveremos de nos perguntar sobre a Sérvia e os países dos Balcãs Ocidentais”, disse Merkel. Ela não falou só por ela, ou pela Alemanha, tornou pública uma preocupação que percorre boa parte dos líderes europeus. Putin também acusa Europa e Estados Unidos que quererem romper o equilíbrio geopolítico na região e mudar o jogo de poder global às custas da Rússia. Se o Brasil quer, algum dia, ter voz no Conselho de Segurança da ONU, precisa aprender a distinguir o que é interno e o que afeta o equilíbrio geopolítico global, mesmo quando tudo acontece muito longe de Brasília.

Nem todos os líderes europeus concordam com Angela Merkel e seu afastamento da “ostpolitik”, a política que tenta integrar a Rússia à Europa há décadas, sem muito sucesso. Essa “política para o Leste” começou ainda no final da Guerra Fria. Talvez esteja, mesmo na hora de substitui-la por outra visão geopolítica da relação com o antigo território de influência soviética e da Rússia czarista. Ao que parece, os espectros da Primeira Guerra e da Segunda Guerra mundiais continuam a assombrar o mundo. A “ostpolitik” se tornou mais uma relíquia que um instrumento efetivo de política multilateral. Um dos líderes que defende o diálogo em lugar das sanções e a continuidade da “ostpolitik”, da qual a Alemanha parece estar se afastando rapidamente, é o presidente da Polônia, país ainda muito dependente de suas relações com a Rússia, Bronislaw Komorowski. Seu principal assessor para política externa, Roman Kuzniar, publicou recentemente artigo muito ácido, criticando Angela Merkel. Este é o papel dos que detém função similar à do “assessor de segurança nacional” na Casa Branca. Já os chefes da diplomacia, os ministros das Relações Exteriores, têm mais o papel de manter alguma via de negociação aberta e evitar que todas as pontes sejam queimadas. É o que John Kerry tem feito para Obama e Frank-Walter Steinmeier, o ministro de Relações Exteriores de Merkel, para a Alemanha. Os dois, Merkel e Steinmeier aparecem frequentemente fazendo o jogo do “bad cop-good cop” e este parece ser o segredo do relacionamento entre os dois. Mas não deve haver engano, os dois são rivais políticos e o social-democrata Steinmeier sempre foi a favor de relações mais estreitas entre Berlim e Moscou. Ele entrou para a política no auge da “Neue Ostpolitik” de Willy Brandt e dela nunca se afastou.

O fato é que ninguém sabe o que fazer com a Rússia, até porque ninguém sabe muito bem quem é e o que quer Putin. O que se pode dizer quase com certeza sobre Putin é que ele governa um país em péssimas condições econômicas e sociais e recorre a inimigos externos para compensar os enormes problemas domésticos. Esse ambiente tóxico interno tem a ver com seus erros de política econômica e com a corrupção generalizada, que torna a Rússia um dos países de economia mais ineficiente do mundo. Há muitos analistas que afirmam que Putin governa uma cleptocracia, composta por ele, alguns altos burocratas e uma elite empresarial corrupta, cujas fortunas foram construídas de forma inteiramente ilegal. O próprio Putin, ex-oficial da KGB, hoje milionário, é acusado de ter trilhado o mesmo caminho até o topo da elite econômica e política da Rússia. Com a insatisfação interna crescente, a constituição de inimigos externos é um velho truque, usado desde a antiguidade clássica. Além disso, Putin tem por objetivo claro demarcar seu território de influência. E, nisso, Angela Merkel tem razão: vai além da Crimeia e da Ucrânia, tem a ver sim com a Georgia (o óbvio) e com a Moldávia, no mínimo. Ele está se preparando para atravessar um período de maior isolamento e sanções econômicas. A situação interna tende a se agravar e a agressividade externa de Putin pode escalar mais que proporcionalmente à deterioração doméstica. Há, portanto, um claro risco geopolítico, que transcende o espaço restrito em que se dá o confronto Rússia-Ucrânia.

Putin não admitirá uma derrota na Ucrânia que, vale lembrar, tem uma significativa população russa e mantém laços culturais, afetivos e familiares com a Rússia. O líder russo demonstrou, claramente, sua deliberação de não aceitar a derrota, ao reagir violentamente à proposta de alguns comandantes da OTAN para que a Ucrânia se juntasse à Organização do Tratado Atlântico Norte, para se defender melhor de uma invasão russa. Com a Ucrânia sob a proteção da OTAN, passaria a ter ajuda militar europeia legal e legítima. Putin está, desde então, em confronto direto com a OTAN. Seu porta-voz, Dmiri Pskov, disse que ele quer nada menos que cem por cento de garantia que ninguém sequer cogitará da possibilidade de a Ucrânia juntar-se à OTAN. O presidente russo disse que isto representaria uma incursão inaceitável em “sua esfera histórica de influência”. A OTAN, por sua vez, acusa a Rússia de estar acumulando uma grande capacidade militar na fronteira com a Ucrânia e que há um sério risco de invasão. Putin e outras lideranças russas respondem dizendo que a promessa de que a OTAN não se expandiria para o Leste foi feita ainda nas negociações para a reunificação da Alemanha depois da queda do Muro de Berlim. Há quem negue que essa promessa jamais tenha sido feita, pelo menos formalmente. Mas o fato é que a resistência russa e o conflito em torno da inclusão da Ucrânia à OTAN vêm, pelo menos, desde 2008.

Mais que reverberações da Guerra Fria ou do antigo poderio da URSS, Putin está lançando mão de um sentimento patriótico que alimentou a política expansionista da União Soviética, mas é muito mais antigo. Vem do tempo dos czares e continua a ter impacto na alma russa. A intocabilidade da “mãe russa” e o controle inarredável de suas fronteiras e áreas de influência. É sua arma para conter a insatisfação popular. Mas é certo, também, que todos no conflito falam a linguagem da guerra fria, inclusive Putin, o que dá uma certa sensação de velharia aos discursos e movimentações em torno deste complexo “affair”. Putin, por exemplo, respondeu às acusações sobre seu militarismo dizendo que o “ocidente” (expressão típica da guerra fria) quer forçar a Rússia a entrar em uma outra guerra fria. Em discurso muito aplaudido, acusou o expansionismo da OTAN de quebrar o equilíbrio de poder (outra expressão da guerra fria) e que os Estados Unidos querem resolver seus problemas às custas da Rússia, buscando dominar e influenciar. “Ninguém na história jamais conseguiu dominar a Rússia e ninguém jamais conseguirá,” disse Putin, levantando calorosos aplausos de militantes pró-Kremlin. Equilíbrio de poder, ocidente-leste, esferas de influências, tudo isso parece peça de museu das narrativas da guerra fria. A própria OTAN é uma sobrevivente da guerra fria que vem há muito tempo buscando um novo papel na geopolítica global.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

    Comente

    O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.