Miriam Leitão: A vida na cápsula do tempo

22/11/2014 10h30m. Atualizado em 30/11/2014 22h12m

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Era noite em Luanda, Angola. O país estava sob toque de recolher e eu tinha que voltar ao hotel. Fui andando sozinha pelas ruas, tentando seguir as instruções que o rapaz da cabine de telex havia me dado. Não tenho senso de direção e qualquer patrulha podia atirar em mim, porque estava desafiando a lei de que todos se recolhessem depois de uma certa hora.
Era uma hora incerta da noite. Eu caminhava pelas ruas de Luanda no ano de 1980. O país tinha seis anos de independência e estava em guerra civil.
Dias atrás, falei com um médico tentando descrever um problema e ele pediu:
– Envie uma foto para o meu WhatsApp.
Logo depois a imagem estava no celular dele.
A neta de três anos de uma amiga, outro dia, olhou através do vidro da janela tentando ver algo ao longe. Com a visibilidade ruim, de um dia nublado, ela foi com os dois dedos, o polegar e o indicador, e quis esticar a imagem do vidro da janela como faz no seu iPad. A realidade para ela é uma abstração; o abstrato é real.
Luanda era real, ainda uma cidadezinha, com seus recantos, e um ambiente tenso onde os jornalistas não conseguiam trabalhar. O governo comunista proibia tudo e não havia taxi nos quais se pudesse circular atrás de notícia. Eu havia viajado por Tanzânia, Zâmbia, Zimbabwe, Moçambique antes de chegar a Angola, sempre carregando uma máquina de escrever e laudas. Sim, laudas: palavra usada pelos jornalistas velhos para designar folhas nas quais se escrevia à máquina. Outra arma indispensável me foi entregue pelo chefe de redação, ainda no Brasil:
– Está aqui o seu cartão de telex internacional. Não o perca senão você não poderá trabalhar.
Dias atrás a sonda Philae pousou em um cometa e agora a gente já sabe que cometas são massas geladas cobertas por poeiras e que têm moléculas de carbono. Ele emite um som estranho e o barulho chegou aos nossos ouvidos. Azar da humanidade que o Philae fincou suas perninhas finas em local de pouco sol e está, por enquanto, sem bateria. Vimos seu pouso. Aqui neste blog mesmo havia o link para assistir à descida em tempo real. A missão Rosetta produziu imagens lindas. Um corpo celeste que imita a lua crescente, só que azul: somos nós, a Terra. Uma bola avermelhada é Marte. Ele mandou essas fotos enquanto viajava até o cometa. Eu admirei esse vídeo-slide show no site do Financial Times. Tinha parado nas imagens depois de ler as notícias econômicas. Descansei nesse céu fotografado na viagem da Rosetta.
Na viagem à África, em 1980, evitamos a África do Sul. Lá Nelson Mandela ainda estava preso, os negros viviam sob o regime do apartheid. O ministro brasileiro Ramiro Guerreiro, que fazia a visita oficial, queria deixar claro, ao não pisar solo sul-africano, nosso repúdio ao regime racista.
Quando meu chefe me entregou o cartão de telex eu sabia que aquele seria o único meio de comunicação. Era assim: a gente chegava nas cidades, procurava a cabine pública de telex, levava as laudas com a reportagem datilografada e os funcionários reescreviam no telex e enviavam para o número que indicávamos. Enquanto eles batiam no teclado, uma fita amarela era furada pela máquina, inscrevendo um código. Depois essa fita era colocada em um leitor, no outro extremo da máquina, fazia-se a ligação telefônica para o número do telex do jornal e então se disparava o leitor que ia traduzindo os buraquinhos da fita. Um texto então aparecia escrito no aparelho da redação do jornal. Com o cartão, pagávamos pelo uso da nossa maravilha tecnológica.
O problema é que eu me atrasei para chegar à cabine. O rapaz parou a digitação antes do fim do texto e avisou que estava indo embora por causa do toque de recolher. Eu disse que a matéria tinha que ser enviada naquele dia.
– Então, acabe de escrever, telefone para o número do seu jornal e passa fita – disse ele.
– E a sala?
– Bata a porta ao sair – e foi embora, o angolano, depois de me dar parcas instruções de como chegar ao hotel.
Estava sozinha numa cabine pública de telex e não sabia muito bem operar a engenhoca. Fui digitar. Descobri que o teclado não era o A-S-D-F-G. Seguia outra sequência de letras. Demorei catando milho, mais ainda fazendo o trabalho de transmissão. Foi um alívio receber o sinal positivo do jornal em São Paulo. Peguei minha bolsa, apaguei a luz da sala, bati a porta e saí para a noite de Luanda.
Resolvi andar bem no meio da calçada para mostrar que eu nada tinha a esconder. Deu certo e eu cheguei ao hotel. Levei uma bronca do embaixador:
– Se você morresse criaria um problema diplomático.
Eu vivi para ver todas as revoluções tecnológicas que mudaram a vida das comunicações. A impressão que tenho é que durante a minha vida profissional viajei numa cápsula do tempo. Fui da pré-história ao mundo da ficção científica. Hoje posso admirar as imagens de solos de seres celestes ou uma língua incandescente que se desprendeu do sol. Navego por sites, jornais, páginas pessoais, mando mensagens por canais instantâneos sem sair do lugar. Das viagens virtuais talvez me esqueça, mas me lembro ainda hoje, com nitidez, do frio na espinha que senti durante a caminhada para o hotel, quando ouvi o barulho de um carro se aproximando, na noite de Luanda. Parei, coração disparado, e esperei.
O carro passou por mim bem devagar. E sumiu na noite escura.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

2 Comentários para "Miriam Leitão: A vida na cápsula do tempo"

  • Vera Lúcia Costa Cruz 22-11-2014 (5:37 pm)

    Excelente, a crônica de Miriam Leitão. Uma crônica sobre o avanço da tecnologia através dos tempos. Uma crônica gostosa de se ler. Parabéns, Miriam.

  • Miriam Leitao 24-11-2014 (9:23 pm)

    Obrigada Vera Lúcia.

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