México – as dores de uma crise

18/11/2014 17h29m. Atualizado em 30/11/2014 22h16m

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“Ninguém tem direito a reconhecer um cadáver. Ninguém tem direito a transportar um morto. Não vai haver nesta cidade quinhentos cortejos fúnebres amanhã. Atirem os cadáveres na vala comum.” (Carlos Fuentes, 1968).

Por Débora Thomé
Em 1968, jovens, provavelmente centenas deles, foram mortos no massacre que marcaria para sempre a história do México. Estavam apenas protestando. A chacina, ocorrida em Tlatelolco, Cidade do México, era o motivo pelo qual normalistas da escola rural de Ayotzinapa, no estado de Guerrero, estavam promovendo algumas ações nas cercanias de Iguala em fins de setembro de 2014. O objetivo era um: conseguir ônibus para que pudessem ir à capital participar dos eventos que marcariam 46 anos da barbárie. Em meio ao caos de violência que atinge algumas áreas do México, 43 deles acabaram mortos sem que os corpos fossem, até agora, localizados.

Resumindo uma história que ainda parece pouco clara, os estudantes vinham fazendo uma série de movimentos em Iguala. Entre eles, apreender os tais ônibus que os levariam ao DF, ou exigir pagamento de pedágios, para o mesmo fim. Na noite trágica, surgiu a informação de que eles estariam na cidade, o que poderia prejudicar um evento da mulher do prefeito, futura candidata ao cargo e ligada a narcotraficantes locais. Os normalistas, a cargo da policia municipal, teriam sido entregues a narcotraficantes. Foram levados vivos e deles não se teve mais notícia.

No fim deste novembro, completam-se dois meses do desaparecimento. A comunidade internacional, porém, parece ter se dado conta apenas há dias de que mais um momento crítico da humanidade havia ocorrido ali. Os próprios mexicanos demoraram para tomar ciência da gravidade dos fatos que antecederam o massacre, embora já vivessem no seu dia a dia a onipresença do forte aparato policial. Esses dois mapas abaixo, de uma apresentação do professor Arturo Sotomayor, especialista em segurança, dão uma primeira dimensão do problema, ao mostrar a influência dos cartéis de narcotraficantes e o aumento do número de mortes no país.

Um certo atraso na indignação coletiva, que agora ecoa em paralisações diárias em todo o país, tem um porquê que a nós soará muito familiar. Entendia-se, até a morte de 43 normalistas, que as vítimas eram participantes da guerra do narcotráfico. Traficantes matando traficantes ou militares matando traficantes. Como disse lindamente o professor Andreas Schedler, num artigo ontem no Reforma, “no hay tierra más fértil para la indiferencia que la idea de las víctimas culpables”. Tentava-se ignorar que, numa crise institucional na esfera da segurança, todos sofrem, principalmente os mais pobres. Assim aconteceu em ampla escala com os desplazados colobianos nos piores anos.

Curiosamente, as taxas de homicídio mexicanas (que, sim, aumentaram) continuam menores que as do Brasil e de outros países centro-americanos. O que o massacre dos normalistas de Ayotzinapa – palavra quase impronunciável para nós – trouxe à tona foi a existência de uma crise institucional grave. Quando, a pedido de políticos, com interesses eleitorais, a polícia é acionada e recorre ao poder paralelo dos narcos com o intuito de que eles “façam justiça”, fica nítido um estado de falência. Isso sem mencionar a banalização das mortes per se.

O México vive um nó difícil de desatar. Um Estado com uma institucionalidade problemática (por exemplo, há uma dificuldade enorme em julgar e prender os criminosos), localizado ao lado do maior mercado consumidor de drogas do planeta (veja gráfico abaixo) e exportador de armas de forma ilícita. Os Estados Unidos têm sido fartamente acusados neste momento por sua leniência nas fronteiras de saída. Um estudo de 2005 (quase 10 anos atrás!) dava conta de que havia no México 2,824 milhões de armas ilegais, ou seja, a cada 100 habitantes, 2 estavam armados ilegalmente.

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Tudo isso aconteceu num momento em que o México era a bola da vez. O presidente galã do PRI era o responsável pela “salvação mexicana”, segundo capa imponente da Revista Time de fevereiro deste ano. Isso graças a algumas reformas (como a energética), que estava conseguindo levar adiante. A violência ficou muito mais discreta no noticiário, numa estratégia informada pelo gabinete de comunicação do governo.

Mas a crise de violência gritou mais forte. E segurança – aquela mais básica – é a primeira coisa que qualquer investimento do mundo procura. Exceto os investimentos feitos em decorrência da própria violência (compra de armas para Exército, carros blindados, entre outros). Mas isso é conversa para um próximo texto.

Débora Thomé

Débora Thomé é jornalista, mestre em Ciência Política. Autora de “O Bolsa Família e a social-democracia” (Editora FGV). Um dia se descobriu latinoamericana e nunca mais deixou de acompanhar a região.

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