O grupo que pede intervenção militar é pequeno e tem memória curta

17/11/2014 17h01m. Atualizado em 30/11/2014 22h17m

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Uma parte pequena do grupo de manifestantes que realizou uma passeata neste sábado (15), dia da Proclamação da República, em Brasília, parece ter memória curta… e no dia errado.
Mais uma vez, uma minoria repetiu a defesa de intervenção militar. Desde o fim da ditadura, que matou, torturou, e ocultou cadáveres, é a primeira vez que há uma direita civil articulada, que vai para a rua.
A ideia de chamar os militares, além de impraticável nos dias atuais, é preocupante, para dizer o mínimo. Mostra a memória curta do país. Uma geração que não viveu a ditadura, nem aprendeu o que o país sofreu nos tempos de chumbo: ditadores acabam engolindo na máquina de violência até mesmo aquelas lideranças civis que provocaram a intervenção militar.
E o autoritarismo que se imaginava curto, apenas para restaurar os rumos da democracia e afastar a “ameaça comunista”, acabou se prolongando por duas décadas.
Repito: o grupo que pede isso era minoria entre os que foram à rua. A maioria queria a recontagem dos votos das Eleições de 2014 e outros o impeachment da presidente reeleita Dilma Rousseff.
Como já aprendemos na história recente, “impeachment” não ocorre porque um grupo quer. É o final de um longo processo feito dentro do estado de direito.
Apontado como um dos líderes do movimento pelos jornais, Matheus Sathler, 31, falou ao blog pelo Facebook. Perguntado sobre o que motivou a organizar o protesto ele respondeu: “Nossa manifestação é pelo impeachment da Dilma! E se vierem com golpe comunista defendemos intervenção militar constitucional art.142 da [Constituição Federal] para manutenção da democracia e convocação de novas eleições”.
O artigo diz assim: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”
O melhor é combater qualquer discurso nesse sentido logo no início. Lá atrás, como se viu, o coronel Jarbas Passarinho resumiu o espírito que acaba imperando em movimentos autoritários: “às favas, senhor presidente, neste momento, com todos os escrúpulos de consciência”. Isto foi na reunião que decretou o triste AI-5, que censurou à imprensa e suspendeu todas as garantias individuais.
Repito: era uma minoria. E a democracia permite que ela se manifeste. Segundo Sathler informou ao blog, “no ápice [havia] o dobro da primeira manifestação do dia 1 de novembro: Chegamos a 3 mil pessoas”. A minoria estava dentro desses.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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