Miriam Leitão: O poeta Manoel de Barros e uma semana difícil

15/11/2014 12h09m. Atualizado em 16/11/2014 09h08m

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Quando um poeta morre as palavras ficam órfãs. Cada poeta é único e sabe do seu labor. Desentendido de alguns, o ofício é delicado e misterioso. Por que as poesias escolhem umas pessoas e não outras? E por que passam a ser de todos após lapidadas? Sabe-se pouco da poesia. Apenas que dela nada se sabe.
“Não tenho bens de acontecimentos
O que não sei fazer desconto nas palavras
Entesouro frases”, Manoel de Barros.
Esta semana ele nos deixou. Fiquei numa tristeza! Viveu tanto. Quase um século, recluso no seu pantanal, mas quando foi embora esta semana, versos dele aparecerem no Twitter em lamento e eu fiquei com aquela necessidade urgente da sua poesia.
“Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade”.
Estava em Brasília e meu livro “Poesia Completa. Manoel de Barros”, no Rio.
Foi presente de um amigo querido a quem nem sei se agradeci direito.
Na cabeceira grande que eu fiz para colocar muitos livros, como sonhei na infância, está lá o poeta. Tem boa companhia. João Cabral, Drummond, Cecília.
São tantos e tão grande a cabeceira, que rodeia a cama inteira, que eu perco os livros de vez em quando, mas sabia onde estava e tinha precisão.
Foi uma semana dura de muito trabalho e pouco sono. Palestras, aulas, entrevistas, comentários, colunas e crises.
A fiscal. Crise velha, mas reaparece todo dia.
Os políticos: os que perderam mandato, os que querem ganhar, os que vão dar o troco, iam de um lado para outro como formigas confusas quando perdem o centro do formigueiro. Fui ao Planalto, de lá olhei Brasília. É bonita, a vista.
Manoel de Barros fazia poesia sobre bichos, sobre pássaros, sobre água.
“No chão da água
luava um pássaro
por sobre espumas
de haver estrelas”.
Foi semana dura. Sem ministro e com nervosismo, que terminou num dia longo, cheio de acontecimentos.
Todos presos. Os suspeitos de sempre, mas que nunca eram visitados pela polícia. A Polícia chegou e disse que era o dia do juízo final. De lavar a jato. A sujeira é muita, o povo desconfia. Daqui a pouco: todos soltos. Bons advogados. Mas o dia, véspera do aniversário da República, foi bem republicano. Os jornalistas tiveram muito o que fazer. A economia e a política foram parar na polícia.
No fim do dia, comecei a voltar para o Rio. O Brasil ainda estava confuso. Escrevi muito enquanto o avião atrasava.
“Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras”.
Tinha dito ao autor desse blog, quando vi a chuva cair forte sobre uma Brasília nervosa com as prisões dos empreiteiros, homens de posses e doações, uma frasezinha assim: que a chuva me lave e não me leve.
Não devia ter dito, porque quase que o avião não sai. Espera longa no fim do dia, atraso demais dentro do avião, fila longa demais para pegar o táxi, e a mulher ainda caiu em cima da minha mala. Pedi mil desculpas. Achei que coloquei a mala no caminho. Ela disse que caiu porque estava olhando pra ontem e que minha culpa era nenhuma. Era noite e o trânsito estava todo fechado. Custo a chegar em casa. Estava exausta da semana e do dia, longos demais.
Na minha cabeça, a poesia diferente de Manoel de Barros.
“O sentido normal das palavras não faz bem aos poemas”.
Tentava lembrar de cabeça, mas era difícil.
“Ir recebendo um pouco de poesia no peito.
Sem lembranças do mundo, sem começo…”.
Foi chegar em casa e me preparar para descansar de tanto trabalho. Apaguei a luz para dormir, quase dormia, quando a precisão ficou forte demais.
Acendi a luz de novo, puxei lá embaixo numa das pilhas dos livros, sabia onde estava, derrubei os outros, eles hão de me desculpar, necessidade forte. Abri meu Manoel de Barros e li aos saltos, o que está salteado nesse texto doido.
“Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras”.
Dormi muito bem. Sonhei que escrevia um artigo que começava assim: Quando um poeta morre, as palavras ficam órfãs.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

6 Comentários para "Miriam Leitão: O poeta Manoel de Barros e uma semana difícil"

  • Marilea Nunes Vianna 15-11-2014 (9:04 pm)

    Amei… texto digno do grande poeta Manuel de Barros!

  • Anna Accioly 16-11-2014 (12:56 am)

    Belo artigo. A poesia de Manoel não se esgota. Praticamente aprendi a ler com as cartas que ele enviou a minha irmã nos anos 40, de Nova York. Mais tarde nós encontramos e nunca mais o perdi. Sua aparente simplicidade sempre me fascinou. “A gente é rascunho de pássaro. Esqueceram de acabar.” Muita tristeza por sua partida.

  • Glória Valladares 16-11-2014 (2:27 am)

    Lindo, Miriam. Surfando numa área tão árida, que bem faz a companhia de tantos poetas! Parabéns!

  • Miriam Leitao 16-11-2014 (11:40 am)

    Marilea, Anna, Gloria. Obrigada pelos comentários. Que linda a sua citaçāo Anna. Beijos Miriam

  • Claudio Renato 16-11-2014 (12:41 pm)

    Lindo texto, Linda homenagem a Manoel de Barros, o poeta que desdenhava o céu e adorava o chão.

  • Arcione Maria Vieira Gomes 16-11-2014 (3:55 pm)

    Puxa vida,
    tristeza dele que se foi…
    beleza das palavras que saltaram do coração e da mente de alguém e despencaram no meu coração, com nostalgia, mas com grande reconhecimento a quem merece e nos traz tamanha beleza. Obrigada! Por poder ler esta página.

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