Miriam Leitão estreia crônica: Um corpo na manhã de sábado

01/11/2014 23h59m. Atualizado em 03/11/2014 08h36m

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Por Miriam Leitão *

A manicure chegou pontualmente às nove da manhã do sábado, como havia marcado. Estava agitada, pálida, e se desculpou pelo atraso inexistente.
–Tinha um corpo estendido no chão. E polícia, dona Miriam, muita polícia em volta. Fiquei nervosa de passar por lá.
Pediu para ir ao banheiro antes de começar a fazer minhas unhas.
A mão estava firme quando começou o trabalho, mas falava baixo como se fosse segredo.
– Eu gosto da Rocinha, moro lá desde que cheguei do Ceará, mas tenho muito medo. Nem uma pizza como naquela favela. Eu compro congelada e faço lá no meu forno mesmo.
Reclamou que eu não fazia unha há algum tempo e que, portanto, o trabalho seria lento. Expliquei que estava trabalhando muito e que tinha sido difícil falar com ela.
– Desculpe não ter atendido seu telefonema ontem. Demorei a ver. Muito trabalho no salão. Quando ouvi os recados, uma noiva estava me ligando. Sabe como é noiva. Tive que ir correndo. Ainda bem que a senhora podia hoje. Tem gente que não gosta de acordar cedo no sábado.
Barulhos de fogos começaram a ser ouvidos. Vinham da Rocinha. Perguntei o que era aquela barulhada que havia começado na noite anterior. Quando a UPP fora instalada aquilo havia parado.
– É, agora voltou tudo. Esquisito: aqui embaixo a gente ouve o barulho mais forte do que lá em cima. São fogos e tiros. Tudo junto, porque com os fogos a gente não ouve os tiros. São duas facções. Elas agora estão brigando para ver quem toma conta. Eu tive esperança quando chegou a UPP. Tão bonita a favela, podia ser tudo direitinho. O lugar é bom, perto de tudo. Que cor a senhora vai querer? O branquinho mesmo? Fica bonito na sua mão.
Olhei a minha mão limpíssima, e os movimentos firmes e delicados que ela fazia ao lixar pela última vez antes de pintar.
– Essa mão está com unhas maiores que as da outra mão. Quer que iguale?
Escolhi a desigualdade. Em um país como o Brasil a assimetria nem seria notada.
– Outro dia fiquei nervosa. Gritei tanto dona Miriam. Eu tinha ido levar o presente de aniversário da minha sobrinha. Fui eu e meu marido. No caminho, a gente viu que tinha um rapaz brigando com um senhorzinho, motorista de taxi, perto do ponto dos moto taxi. Quando a gente olhou, o rapaz abriu a mão e deu na cara do senhorzinho. Meu marido ficou tão nervoso e foi pra cima, chamando o cara de covarde. Eu gritei muito para ele não se envolver. Eu tenho muito medo. A gente não sabe né? Pode ser gente de facção. Custei a puxar meu marido. Ele é bom marido. A gente não quer ter filho. Esse mundo está muito difícil dona Miriam. Ele é trabalhador, meu marido. Começou como estoquista na empresa e hoje já está no SAC. Serviço de Atendimento ao Consumidor. Vaga boa. Antes trabalhava na Penha, agora no escritório em Ipanema. Está há 20 anos na empresa. Ele queria defender o senhorzinho. Eu achei covardia também, mas é melhor a gente não criar confusão. Tão bonita a favela, podia ser um bom lugar.
Avisou que desta vez não faria apenas a limpeza do pé, que iria colocar um esmalte, no mesmo tom da mão. Concordei. Afinal, no verão, mulheres usam muito sandálias.
– Pronto, agora sim a senhora está elegante, tudo limpinho e pintado – disse, guardando as luvas e os equipamentos usados na bolsa. Ela os trouxera esterilizados em invólucro que abriu na minha frente.
Eu quis saber mais sobre o corpo, se ouvira alguma informação sobre o crime.
– Não sei. Perguntei para um morador e ele disse que não foi coisa da Polícia não. Deve ser briga de facção. Muita polícia por lá, muita. Deve ser alguém importante. O corpo estava estendido no chão. Até me senti mal e liguei para o meu marido. Ele mandou eu ficar calma e passar longe. Foi o que eu fiz. Mas é ruim não é? Logo cedo, ver um corpo.
Ela foi embora e antes me disse que estava com pressa: era seu dia de folga no salão e tinha muita coisa para resolver.
Esperarei a volta da manicure com as últimas notícias. Elas nem sempre saem no jornal.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

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