Escolha de novos ministros dirá se Dilma realmente tem ideias novas

01/11/2014 08h47m. Atualizado em 02/11/2014 12h32m

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O problema da Bolsa de Apostas de nomes para o Ministério da Fazenda é que ela tem nomes radicalmente opostos. A presidente Dilma viajou para o descanso deixando o caminho aberto e dando poucos sinais. Que pessoas como Jacques Wagner e Miguel Rossetto terão força no novo governo, não se tem dúvida. Mas ela não deixou pistas sobre que perfil busca para o cargo chave: a Fazenda.
Se o escolhido for uma pessoa não ligada a partidos, mas que passou sua vida no setor privado, o de Luiz Carlos Trabucco por exemplo, a indicação que a presidente vai dar é de mudança total de direção e a primeira frente de ataque será a do controle dos gastos públicos.
Isso tem a vantagem de restaurar mais rapidamente a credibilidade na condução da política fiscal e ajudar o Banco Central no esforço contra a inflação. A questão é que o rombo nas contas ficou enorme nos últimos meses. Os cinco déficits primários consecutivos, sendo o último de R$ 25 bilhões abrem, um buraco na desconfiança em relação ao governo.
Soluções caseiras como Aloizio Mercadante, Luciano Coutinho e Nelson Barbosa vão mostrar que a presidente continuará dirigindo a economia como o fez no primeiro mandato, com algumas mudanças pontuais. Nesse grupo, Nelson Barbosa fez um esforço para se cacifar agradando dois lados. Passou os últimos anos depois de sair do governo, ancorado na Fundação Getúlio Vargas, e circulando entre empresários e banqueiros falando em correções de rumo na política econômica. Nunca se comprometeu com mudanças profundas. Mas passou a ser visto como um emissário de Dilma, espécie de escalão avançado para avisar que um segundo mandato ele poderia ocupar a Fazenda.
Para a agricultura também não está claro que perfil a presidente busca. A ala moderna do agronegócio tem se ampliado nos últimos anos. Aquela que sabe que a palavra “sustentabilidade” não é coisa de inimigo da produção. Durante a campanha eleitoral representantes de produtores rurais conversaram naturalmente com Marina Silva e ninguém deu demonstrações de medo, mesmo quando Marina estava na frente. Símbolo disso foi a relação amistosa da chapa que acabou disputando no PSB Marina e Beto Albuquerque.
Por isso será interessante observar quem será escolhido para o Ministério da Agricultura. A senadora Katia Abreu se tornou próxima de Dilma e está ligada ao que há de mais radical no agronegócio. Na Confederação Nacional da Agricultura ela defendeu teses que nada têm de moderadas. Se for ela a escolhida, o país pode dar alguns passos atrás na conciliação entre meio ambiente e produção agropecuária. O problema é que no mundo atual essa conciliação será cada vez mais exigida de um país como o Brasil que é e sempre será grande produtor de grãos e carne.
Para o Planejamento, fala-se da volta do ministro Paulo Bernardo. Ele se desempenhou melhor no cargo do que a atual ministra Miriam Belchior, que tem parte da responsabilidade da falta de controle das contas públicas a que se chegou. Pode ser um bom ministro, dependendo de quem estiver na Fazenda. Ele costuma fazer dobradinha com o ministro da outra pasta, seguindo as orientações dadas. Pode ajudar o ajuste se esse for o caminho escolhido.
Mas se a presidente quiser confirmar o slogan do marketing da campanha – governo novo, ideias novas – terá que se esforçar mais porque a maioria dos nomes que circula parece indicar o oposto. E se for isso, ela inaugurará o mandato com uma cara de governo velho.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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