Pizzolato: entrevista antes da fuga revela mistura de BB, Previ e PT

29/10/2014 21h50m. Atualizado em 12/02/2015 14h33m

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Henrique Pizzolato já estava condenado, mas não havia fugido, quando me encontrei com ele e sua mulher em Copacabana. Consegui convencê-lo a conversar comigo, depois de uma certa insistência. Pizzolato marcou perto de uma praça em Copacabana. Estava magro, sem barba, abatido e um com boné enfiado na cabeça para não ser reconhecido. Foi sua última entrevista antes de fugir para a Itália. Hoje ele está solto, depois que a Justiça italiana negou a extradição. Fiz a entrevista em 2012 quando estava na Folha. Foi uma longa conversa de duas horas. Perguntei se ele se preparava para fugir, e ele negou. Mas, como se sabe, mentia porque de fato fugiu. Defendeu sua versão para o dinheiro em espécie que recebeu. Tentava defender sua inocência, mas seu relato mostrou a mistura entre cargos de direção do Banco do Brasil, com o fundo de pensão, e os interesses partidários. É interessante revisitar essa entrevista depois de saber como os fatos se desenrolaram. Para lembrar: ele foi acusado de ter autorizado como integrante do Visanet o adiantamento de R$ 73,8 milhões ao grupo de Marcos Valério e para isso teria recebido R$ 336 mil.
A explicação que ele deu é que a secretária do Marcos Valério ligou e pediu que ele fosse buscar “um pacote”. Ele apesar de ser um diretor do Banco do Brasil, aceitou buscar o pacote que alega não saber o que era. Naquele dia não poderia porque estava estudando a pauta da reunião da Previ, do qual era conselheiro. A Previ é o maior fundo de pensão do Brasil. Ele mandou então um funcionário da Previ pegar o tal pacote que depois, segundo ele, entregou a um emissário do PT, do qual alega não saber o nome.
Diz em sua defesa que nenhum documento do Visanet, que tinha vários sócios, inclusive empresas privadas, era assinado por uma pessoa apenas. E que ele tem os documentos mostrando que não liberou o dinheiro sozinho. Abaixo, a entrevista.

Matheus Leitão – O senhor falou em juízo que uma secretária do Marcos Valério entrou em contato com o senhor para pegar um pacote. O senhor respondeu que naquele momento o senhor não podia. Considera normal receber isso? Afinal era diretor do Banco do Brasil.

Pizzolato – Sim, agências de publicidade faziam contato constantemente comigo. E quem ligava sempre eram as secretárias, funcionários da agência. Não tinha nada que fosse fora de rotina, porque a agência prestava serviço ao banco. A agência constantemente tinha contato comigo. Eu não tinha nenhum parâmetro para dizer que era algo estranho. Era um prestador de serviço tendo contato comigo.

Matheus – O Supremo achou inacreditável essa sua versão. O senhor mantém a mesma versão?

Pizzolato- Sem dúvida. u abri meu sigilo fiscal, bancário. Tudo. Os depoimentos das testemunhas confirmam. Eu recebi um telefonema para fazer um favor. Para mim era algo que eu poderia fazer, mas não tinha urgência, tanto que eu disse: eu posso fazer, mas num outro dia. E quem me pediu não contestou, não colocou nenhum obstáculo. Quando eu propus uma alternativa, aceitaram.

Matheus – Qual alternativa? [ele disse que pediu para um contínuo buscar o dinheiro] A do contínuo?

Pizzolato – Sim, de mandar uma outra pessoa ou eu iria no dia seguinte, porque naquele dia eu tinha uma programação estabelecida. Se fosse uma coisa urgentíssima, mas não era assim. Era… pode fazer o favor de receber uns documentos? A primeira contestação minha foi… isso me desorganiza a rotina, eu posso ir amanhã? Porque estou estudando uma pauta que não quero interromper e depois da reunião eu posso ir. Aí me disseram que eles precisariam que fosse naquele dia. Perguntei: é obrigatório que seja eu? Eles disseram que não, que podia ser outra pessoa, desde que os documentos fossem entregues ao PT. Aí eu apresentei aquela alternativa que para mim era plausível.

Matheus – De mandar um contínuo da Previ?

Pizzolato – Sim, um contínuo da Previ porque eu tinha vindo para uma reunião da Previ. Eu tinha vindo ao Rio para a reunião do Conselho da Previ. Isso eu falei no meu depoimento. Eu vinha com um pouco de antecedência porque as pautas eram extensas e eu presidia a reunião e tinha que estudar a pauta, dar uma burilada na pauta. Por isso eu liguei para a Previ e pedi a alguém que me fizesse aquele favor. E ninguém me deu o endereço, nem o contínuo quando voltou me disse onde esteve. Ele simplesmente chegou e me entregou. A história dois anos depois é que tomou os contornos, tanto que o contínuo disse no depoimento dele que ele não foi recebido em local de atendimento público, que a pessoa deu um papel para ele assinar e entregou.

Matheus – E tudo foi entregue ao senhor?

Pizzolato – A pessoa do PT viria à minha casa. Aí o contínuo deixou comigo e no final do dia apareceu um cidadão e se apresentou: – olha eu sou do PT e vim buscar os documentos que o Marcos Valério mandou para o PT.

Matheus – O senhor nunca disse o nome dessa pessoa. Não é a hora de senhor dizer?

Pizzolato – Eu não pedi o nome da pessoa. Eu não sei quem é. Eu fiz um favor, semelhante a você viajar e alguém que você conheça pedir para levar uma encomenda e vai ter uma pessoa no aeroporto esperando.

Matheus -O Supremo achou inverossímil.

Pizzolato – Mas foi o que aconteceu. Eu fiz um favor. Quando eu estava na Previ, constantemente a BBTur me pedia para embarcar e levar documentos. Me entregavam um envelope. Acontecia com dezenas de pessoas.

Matheus – Naquele momento o senhor estava exercendo uma função partidária?

Pizzolato – Não.

Matheus – Em algum momento o senhor acha que foi usado pelo partido?

Pizzolato – Eu jamais exerci função partidária. Se fosse eu teria sido eleito. Eu era funcionário por mais de 30 anos do banco. Eu já tinha ocupado cargos hierarquicamente superiores no governo FHC.

Matheus- Mas o senhor foi apontado pelo Ministério Público como peça fundamental no abastecimento do esquema do mensalão. O senhor foi condenado por unanimidade pela mais alta Corte do país. Como o senhor recebe essa condenação?

Pizzolato – O que eu tenho certeza é que eu sou inocente disto. A minha defesa mostrou como funcionava o Visanet e como funcionava o banco. E que eu não nomeei as pessoas que assinavam e faziam os aportes de verbas.

Matheus- A pergunta é: como o senhor recebeu essa condenação?

Pizzolato – Como é que eu posso receber? Estou sobrevivendo à base de remédio. Isso é uma violência ao ser humano. No dia que eu recebi a notícia eu não enfartei porque…eu dou graças a Deus. Ha oito anos eu me pergunto por que eu fui incluído nisso, com base em que, qual é o documento. Qual é o ato que eu fiz? Me mostre algo que eu fiz. Isso eu disse no meu depoimento na Polícia Federal: vocês esculhambaram, acabaram com a minha vida e da minha família com base em ilações.

Matheus – A CPI queria o indiciamento das outras três pessoas que assinam os adiantamentos. O senhor se sente injustiçado?

Pizzolato- Seria o mínimo. O Ministério Público tem que responder porque eu e os outros não? Eles eram funcionários do banco, cada um com suas competências, suas funções.

Matheus – Voltando ao dinheiro, até sua própria defesa naquele memorial disse que não havia sido muito convincente a questão de receber o dinheiro, enfim da forma como o senhor contou…

Pizzolato -Me pediram para eu fazer um favor, num determinado momento. Eu não tinha motivo nenhum para ser deselegante. E eu fiz o favor.

Matheus – O senhor está protegendo alguém?

Pizzolato – Eu estou protegendo a mim, quer dizer estou protegendo não, estou tentando me proteger. Eu estou tentando me manter vivo. É isso. E quero justiça.

Matheus – O senhor recebeu algum pedido, de alguém do partido, para assinar esse documento?

Pizzolato – Não… o banco tem normas tão severas, que se o presidente da ONU pedisse, é impossível fazer. Ninguém toma ato isolado no banco.

Matheus – O senhor trabalhou na campanha do presidente Lula?

Pizzolato – Sim, mas não da forma como foi dito. O meu trabalho era o de fazer contatos com empresas e discutir plano de governo. Eu havia trabalhado na Previ e a Previ, por sua natureza, tinha investimentos nos mais diversos setores.

Matheus – O senhor trabalhava com o Delúbio Soares?

Pizzolato – Não. Eu via o Delúbio no gabinete, numa sala, durante a campanha no comitê do PT. Eu tirei um período de férias, fui para lá e fazia isso.

Matheus – O senhor arrecadava dinheiro?

Pizzolato – Não. Não é qualquer pessoa que junta dinheiro.

Matheus – E o contato com o presidente Lula? Como integrante do partido, qual foi a sua relação com ele?

Pizzolato – Eu o conheci na época do movimento sindical. Na campanha nem cheguei perto. Existe um cerco, assessores.

Matheus – E hoje? Qual é a relação com os réus?

Pizzolato – Nenhuma. Não tinha antes e não tenho agora. A maioria dos réus eu conheci pela televisão. O Marcos Valério era dono de várias agências, mas a relação era com o presidente da agência. Ele não ocupava esse cargo.

Matheus – O senhor se sente abandonado pelo Partido?

Pizzolato – Como vou te dizer? O que eu estou fazendo nesses oito anos é tentar provar a minha inocência porque toda a documentação prova a minha inocência porque toda essa história [da acusação] é fantasiosa. É impossível fazer o que as pessoas estão me atribuindo. Mesmo que eu fosse um mágico não conseguiria fazer.

Matheus – Mas o senhor foi filiado ao partido durante anos…

Pizzolato – Eu não preciso do partido. A questão de provar a minha inocência independe disso. Eu tenho convencimento da minha inocência e tenho os documentos. Eu quero a verdade.

Matheus – O senhor viajou para a Europa antes de começar o julgamento. O senhor pode dizer aonde foi?

Pizzolato – Fui tratar de questões familiares.

Matheus – O senhor pensou em fugir?

Pizzolato – Eu comprei passagem de ida e volta porque era um prazo que eu precisava para atender questões familiares muito sérias que, infelizmente, a sociedade não entende. As pessoas que trabalham com isso – digo, da maldade – não veem que existem seres humanos.

Matheus – O senhor está sob medicamentos.

Pizzolato – O que o senhor acha que eu tenho sentido? Sim. Eu me sinto injustiçado, com a vida destruída, sem perspectiva, execrado, amaldiçoado, excluído da sociedade por algo que não fiz. As pessoas tem tudo aí. Meu Deus do céu.. é bom senso.

Matheus – Mas e as doenças que o senhor diz ter desenvolvido?

Pizzolato – Que doença uma pessoa pode ter numa situação dessas? Você não pode sair a rua, fica bloqueado do acesso a sua família, passa a ser achincalhado, execrado. Imagina alguém que está indo para a guilhotina, fogueira da inquisição injustamente. Não posso sair na janela do prédio.

Matheus – O senhor foi condenado. Está preparado de ter que ir para a cadeia?

Pizzolato – Não quero responder.

O final da história sabemos agora. Ele fugiu, foi preso na Itália. A Justiça italiana negou a extradição e ele já está solto.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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